segunda-feira, 29 de outubro de 2012

No swing de ‘Suburbia’

Mesmo com sua canção ‘Pra Swingar’ na trilha da série global ‘Suburbia’, músico do Som Nosso de Cada Dia diz que está difícil colocar em casa o pão de cada dia 

Suburbia’, nova série da Globo, só estreia na quinta-feira, mas sua trilha sonora já está deixando todo mundo louco para dançar sempre que o comercial rola na televisão com a música ‘Pra Swingar’. O irresistível balanço é um clássico obscuro do já extinto grupo brasileiro de rock Som Nosso de Cada Dia, formado em São Paulo em 1971.

A tal canção é uma parceria de dois de seus integrantes, o baterista Pedrinho (naquele tempo era comum creditarem os músicos desta forma minimalista) e o baixista Pedrão. Este, Pedro Augusto Baldanza, único vivo da formação original, foi pego de surpresa com a volta de sua antiga composição às paradas.

“Um amigo mandou um recado no Facebook dizendo: ‘Parabéns, você está na Globo!’. Perguntei se ele estava maluco, achei que era uma sacanagem, até que minha filha confirmou. Puxa, você não imagina o que mexe com o meu lado psicológico ouvir a nossa música na Globo. Agora, finalmente vão ter que engolir o Som Nosso”, comemora Pedrão.

A alegria inicial, porém, esconde uma história triste. Ele conta que o contrato firmado com a editora EMI anos atrás tem cláusulas que são extremamente desfavoráveis para os compositores.

“Ainda estou me informando melhor a respeito dos direitos, não entendia nada disso. Soube que a Globo paga um preço fixo de R$ 3.600 pelo uso da música na série. Acontece que, nesse contrato que eu e Pedrinho assinamos no passado, a editora fica com 50%. Dinheiro, eu vou ver uma merreca. Mas não ligo, o que importa é ver as pessoas falando de novo da gente”, resigna-se.

Aos 60 anos, Pedrão, que já acompanhou Novos Baianos, Elis Regina, Ney Matogrosso e Gal Costa, entre outros, e atualmente toca com a dupla Sá & Guarabyra, diz que está difícil colocar em casa o pão de cada dia.

“Ultimamente está faltando dinheiro para pagar o aluguel e, às vezes, até para comer. A Globo demora uns 40 dias para pagar. Ferrou: vou ter que pedir dinheiro emprestado para ex-mulher ou para os meus filhos. Estou me virando. Se você não está na mídia, o máximo que consegue são as migalhinhas que caem no chão”, lamenta o lendário músico.

PROMOÇÃO INÉDITA
Para divulgar ‘Suburbia’, a Globo apostou na interatividade e lançou uma campanha em seus intervalos comerciais. Entre os dias 22 e 26 deste mês, uma chamada com cenas da série ao som de ‘Pra Swingar’ avisava que quem gostou da música poderia recebê-la por e-mail. Bastava fotografar a logomarca de ‘Suburbia’ que assinava o anúncio e encaminhar para um determinado e-mail.

“É a primeira vez que a Globo faz uma experiência desse tipo, de oferecer música via e-mail. Eles negociaram isso com a editora sem nem falar comigo. Pela promoção, a Globo vai pagar R$ 5 mil. Tem uma série de coisas nesse contrato que não entendo direito, só sei que, no fim das contas, vou dividir com a família do Pedrinho uns poucos reais que vão sobrar lá no final”, descreve Pedrão.

Mas nada disso parece tirar seu bom humor. “Acho o máximo essa promoção moderna em cima de uma banda que não existe mais e de uma música de 35 anos atrás. Pela primeira vez, estamos entrando na Globo. Pelo menos vou ter história para contar para meus netos”, celebra.

Pedrão conta ainda que há material inédito do Som Nosso de Cada Dia para vir à tona. “Em 2008, o pessoal da Virada Cultural de São Paulo me chamou para tocar nosso primeiro disco, o ‘Snegs’, que consideram um marco. O Pedrinho já tinha morrido, mas o nosso terceiro integrante, o Manito (ex-Os Incríveis), estava vivo e fizemos o show no Municipal de São Paulo. Foi o último show do Som Nosso. Tenho isso gravado e um dia, se tiver dinheiro, vou lançar em DVD. Em 1977, tocamos no mesmo Municipal, e foi a primeira vez que o espaço abriu para o rock. Só eu dei uns 30 ácidos para os malucos da plateia”, recorda. LSM

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Luz, câmera, canção!

Um papo de cinema com os músicos Lenine, Dado Villa-Lobos, Plinio Profeta e Carlinhos Brown, finalistas por suas trilhas sonoras no ‘Oscar’ brasileiro

Eles sabem tudo de gravações, shows e turnês. E quando o assunto é cinema, essa turma da música também gosta de dar seus pitacos. Sempre que podem, contribuem nas trilhas sonoras e ainda faturam suas estatuetas. Hoje, é dia de concorrer a mais uma, na cerimônia do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, a partir das 20h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Reunimos Lenine, Dado Villa-Lobos e Plinio Profeta, e ainda fomos atrás de Carlinhos Brown (que não pôde comparecer ao encontro por estar ocupado no programa de televisão ‘The Voice’), todos finalistas na categoria Melhor Trilha Sonora, para um papo cinematográfico. “Quando servimos ao cinema, somos só uma peça na engrenagem, ao contrário dos nossos shows, onde somos o centro das atenções”, compara Lenine, que concorre pela trilha do filme ‘Amor?’, de João Jardim.

Ser coadjuvante não diminui o tesão desses músicos ao preparar canções para um longa. Muito pelo contrário. “É mais livre, não precisa ter refrão, nem dois minutos de duração para tocar no rádio”, explica Plinio Profeta, autor da trilha de ‘O Palhaço’, filme dirigido por Selton Mello que é candidato a representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2013.


Para explicar sua paixão pela música e pelo cinema, Dado Villa-Lobos chegou a criar um verbo. “É o ‘ouver’, mistura de ver e ouvir. Imagem e som andam cada vez mais juntos, tanto que, quando queremos procurar uma música na Internet, vamos ao YouTube”, ressalta o guitarrista da Legião Urbana e candidato ao Grande Prêmio por ‘Malu De Bicicleta’, de Flávio Tambellini.

CAVEIRA NO VOCAL
Dos três, Dado é o mais rodado quando o assunto é trilha: já acumula nove no currículo. Plinio e Lenine, no entanto, já experimentaram atuar. “Vivi o profeta Gentileza em um curta, mas sou um péssimo ator, um canastrão”, assume Lenine.

Apesar de rivais na disputa pelo troféu hoje, eles concordam em todo o resto: da qualidade do cinema brasileiro à performance do ‘Capitão NascimentoWagner Moura no recente tributo à Legião Urbana. “Ele foi um gladiador!”, elogia Dado, atestando que o ator é caveira no vocal.

‘NÃO ESPERAVA A INDICAÇÃO’ 
Carlinhos Brown concorre ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro por sua trilha para o filme ‘Capitães de Areia’, dirigido por Cecília Amado. O baiano disputou este ano o cobiçado Oscar, com a música que fez com Sergio Mendes para a animação ‘Rio’. Não levou.

“Muitas pessoas têm lutado em torno de um reconhecimento da Academia. Eu não esperava a indicação, nem um honroso segundo lugar, já que só duas músicas concorreram”, avalia Brown. “Estou estudando para chegar lá. As oportunidades continuam fortíssimas em relação à América”.

Plinio Profeta está animado, mas teme que, se ‘O Palhaço’ for indicado, não leve o Oscar. “O francês ‘Intocáveis’ está muito forte lá fora”, destaca. LSM (foto alto João Laet)

sábado, 13 de outubro de 2012

O balacobaco da Maria Gadú

Ator Leandro Léo grava CD com produção da cantora, que estreia na função

O telefone de Leandro Léo toca às três da madrugada. Do outro lado, o poeta Caio Sóh, muito entusiasmado, quase que ordenando que o amigo compareça na mesma hora no Kaçuá, um bar no Recreio dos Bandeirantes, para conhecer uma cantora, “a futura grande revelação da música brasileira”.

“Foi logo que a Maria Gadú veio de São Paulo para o Rio. Cheguei lá e fiquei procurando a tal cantora. Como ela estava de boné e com o cabelo curtinho, não deu outra: a confundi com um garoto. Perguntei: “Cara, cadê a mina?’”, recorda Leandro Léo.


Na ocasião, ele, que está no ar na novela ‘Balacobaco’, da Record, como o personagem Vinagre , já era ator. Acontece que, naquele encontro que se estendeu madrugada adentro, começava uma amizade que deslancharia na estreia dela na produção de um disco. Justamente o dele, que já está prontinho para ser lançado.

“Perdi a virgindade como produtora”, comemora Maria Gadú. “Não sei como é exatamente esse lance de ser produtora, mas fiz o meu melhor, e foi muito legal a experiência. O disco é quase todo de músicas dele com parceiros, como o Dani Black. Fizemos uma versão para ‘Firmamento’, do Cidade Negra, e eu toco guitarra, violão e canto em várias músicas”, detalha.

Desde o primeiro encontro naquele boteco no Recreio, a amizade dos dois cresceu bastante. Tanto que, principalmente depois de alguns beijos calientes que trocaram no palco em participações dele nos shows dela, não demorou para surgirem boatos de que eles estavam tendo um caso.

“A galera gosta de falar isso. A verdade é que a gente tem uma afinidade gigante e muita intimidade. Moramos juntos durante um ano. As pessoas podem falar o que quiserem, mas o que nós somos mesmo é superamigos”, garante Leandro Léo.


O disco, de 14 faixas, vai se chamar ‘Rei Da Palavra’. As gravações foram feitas com os músicos “internados” durante 11 dias no estúdio Toca do Bandido, no Itanhangá, Zona Oeste do Rio, no maior clima hippie.

“Foi feito da mesma forma que a Cássia Eller e sua banda faziam, com todo mundo junto todo dia, almoçando junto”, descreve ele. “Eu já tenho essas músicas prontas há uns quatro anos, e até podia ter lançado esse disco, mas nunca achei que era a hora certa para isso. Se fosse feito antes, não teria conseguido a Maria Gadú disponível, por exemplo”, ressalta.

SEMPRE SE DIVIDINDO
Cantor e ator, Leandro Léo se divide para conseguir conciliar as duas atividades que ama. “Todo mundo gosta de música, mas o mundo das artes cênicas também é fantástico. Não me considero ator nem cantor, eu gosto muito é de ser artista, de viver de arte, seja lá qual for. Às vezes, os horários de shows e gravações coincidem, mas vale a pena investir e, no final, sempre dá certo”, garante.


Em ‘Balacobaco’, ele é Vinagre, personagem que, assim como ele, também se divide entre duas funções: trabalha como garçom na pastelaria Stromboli, de Osório (André Mattos), e auxilia Zé Maria (Silvio Guindane) na produção de curtas-metragens trash. “O Vinagre é um cara pessimista, meio azedo, mas eu vou dar um jeito nesse amargo dele”, brinca o artista. LSM

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

‘Canta Papel Marchê?’

Pioneiros do sertanejo universitário, João Bosco & Vinicius gravam DVD na sala de casa e contam as confusões pelas quais passam por serem homônimos de famosos artistas da música brasileira

Já imaginou que confusão causaria um artista novo que surgisse na cena com o nome de Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Milton Nascimento? A bagunça, na verdade, já vem rolando, e a vítima é outro conhecido nome da música brasileira: João Bosco, autor de clássicos como ‘O Bêbado e a Equilibrista’ e célebre parceiro de Aldir Blanc.

“Nos sacaneiam muito”, conta seu homônimo, o João Bosco sertanejo, que faz dupla com Vinicius. “É comum pedirem para a gente cantar a música ‘Papel Marchê’, do outro João Bosco, que é um cara alto nível. Ser confundido com ele é uma honra”, diz a dupla acaba de lançar um novo DVD, ‘A Festa’.

O João Bosco mais antigo, no entanto, não festeja o fato de ter um homônimo no meio artístico: “Recebo e-mails de gente me confundindo, com reclamações sobre sacrifícios de animais em rodeios”, relata ele, que já passou até por saia justa, quando um repórter marcou entrevista achando que seria com o outro.

O novato João Bosco também experimenta situações inusitadas por conta de seu nome. Assim como Vinicius, que é alvo de piadas envolvendo Vinicius de Moraes. “Costumam perguntar se o Toquinho não vai aparecer”, diverte-se João Bosco.

O autor de ‘Aquarela’ nunca deu uma palinha em seus shows, mas o novo DVD está recheado de amigos e de sucessos. Em vez de um megaespetáculo diante de milhares de pessoas, a dupla quis variar e reuniu um punhado de chegados para uma festinha particular em uma casa.  “Cantamos descontraidamente no meio da sala, sem palco ou iluminação especial. A ideia foi resgatar o clima da época em que tocávamos nos bares e nas festas de amigos”, explica Vinicius.

Data desses tempos idos o surgimento do termo ‘sertanejo universitário’, cunhado para classificar justamente o som de João Bosco & Vinicius (leia mais ao lado). Na ocasião, paralelamente à música, eles cursavam Odontologia e Fisioterapia, respectivamente, na Uniderp, em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.  “Não existia essa classificação antes da gente, mas não fomos nós que inventamos isso, foi a mídia e os próprios universitários. A nossa mistura do sertanejo de raiz com a música pop mundial foi muito bem recebida por esse público. Falavam: ‘Vocês são sertanejos, mas o som de vocês não dá sono’. O rótulo ‘universitário’ tirou do sertanejo o estigma de ser uma música careta”, avalia Vinicius.

João Bosco atesta, inclusive, que atualmente a Campo Grande que os catapultou ao estrelato já roubou de Goiânia o título de capital da música sertaneja. “Se balançar uma árvore em Campo Grande, caem umas cinco duplas sertanejas”, brinca.


PRECURSORES DO SERTANEJO UNIVERSITÁRIO
Para o bem ou para o mal, foram João Bosco & Vinicius os precursores da febre do sertanejo universitário que tomou de assalto o País. Porém, enquanto milhares de jovens requebram ao som de sucessos de seu repertório, como ‘Chora, Me Liga’ (esta, a música mais executada nas rádios brasileiras no ano de seu lançamento, em 2009), outros tantos torcem o nariz para o que classificam como uma música de menor qualidade.

“Desde que surgimos no cenário, com nossa levada diferente, acelerando o andamento de músicas sertanejas antigas para torná-las mais dançantes, sofremos preconceito. Muita gente do público enlouqueceu, adorou, mas também teve muito protesto”, desabafa Vinicius.

A própria dupla também tem suas reclamações. “Quem critica a gente deveria se informar mais e constatar que nossa história como universitários é real. E que, mesmo assim, a gente nunca se rotulou desta forma, as pessoas é que nos identificaram assim. Por isso mesmo eu sou contra quem, só para fazer sucesso, diz que faz sertanejo universitário sem nunca sequer ter passado na porta de uma faculdade”, dispara o dentista formado João Bosco (Vinicius não chegou a completar o curso de Fisioterapia).

Depois que eles despontaram, muita gente em Campo Grande, e em outras partes do Brasil, começou a pegar carona nas portas que eles escancararam para o gênero. “Os olhos do mercado se voltaram para esse novo tipo de som assim que começamos a aparecer em programas de TV em rede nacional e logo que ganhamos um DVD de Platina. Virou grife dizer que é de Campo Grande”, atesta João Bosco. LSM

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Nasi: ‘O pó que os artistas passam hoje é na cara, não é no nariz’

O nome da banda que o vocalista Nasi ajudou a fundar não poderia ser mais apropriado. Cinco anos depois da turbulenta separação do Ira!, com direito a brigas, ele se mostra mesmo raivoso em ‘A Ira de Nasi’ (Editora Belas Letras, 317 pág., R$ 29,90), sua biografia assinada pelos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo. Nasi relata as pazes que fez com seu irmão e ex-empresário Airton Valadão, mas as melhores partes do livro são as histórias de sexo, drogas e rock and roll, em que o músico conta os seus podres. Aqui, ele fala do lançamento e anuncia novo disco solo.

Como surgiu a ideia de lançar este livro contando a sua biografia?
Em 2004, nós do Ira! começamos a preparar a nossa própria biografia junto do jornalista Alexandre Petillo. Com o fim da banda, em 2007, perdemos o interesse nesse projeto e o material de entrevistas e pesquisa acabou ficando arquivado. No ano passado, fui procurado pela editora Belas Letras com a ideia de retomar isso. Sugeri, então, fazer a minha biografia, que contaria também a história do Ira!, afinal, foi a banda que eu criei e a minha história e a do Ira! estão entrelaçadas. O Alexandre disse que só faltaria se aprofundar mais na minha carreira solo e esmiuçar a questão da separação do grupo. Eu chamei o Mauro Beting para ajudar, porque é um cara com quem eu já trabalhei e que curte muito rock and roll. Só quis que não fosse algo chapa-branca. Eu, como consumidor, quando compro a biografia de um artista, quero que quem escreveu vá abrir as vísceras do biografado.

No livro, você relata o relacionamento que teve com a então namorada do Edgard Scandurra. Se fosse a biografia do Ira!, inicialmente planejada quando o grupo ainda estava junto, esta história também seria contada da mesma forma?
Como a banda estava viva, eu não contaria isso. Deixar isso guardado era um código de honra entre nós. Mas essa história foi um dos motivos de a banda ter acabado. Em 2006, o Edgard mandou um e-mail raivoso para o meu irmão, que era o empresário do Ira!, falando que estava em crise criativa, que não conseguia mais fazer músicas porque não tinha superado essa história que aconteceu dez anos antes. Tivemos ali uma primeira ruptura, que não veio a público. Eu achava que isso tinha sido superado, que essa questão já estava debaixo do tapete. Naquele momento, eu pedi o boné. Foi logo depois do nosso ‘Acústico MTV’. Me convenceram a voltar, mas eu estava convencido a dar uma parada por tempo indeterminado.

Você sabe se os outros integrantes do Ira! leram este seu livro?
Soube que o Edgard deu uma declaração infantil, coisa típica dele. Disse que, se eu tinha transado com muitas mulheres, 80% disso era por causa das músicas dele. Eu morri de rir. Ele é um fanfarrão. Tenho certeza que no livro não tem nada de difamatório, nada que possa ser classificado como calúnia. E, quer saber? Pouco me importa a opinião deles. Até por curiosidade, acho que eles deveriam ter algum interesse nisso, afinal, é a história do Ira!. Mas meu contato com eles hoje é nenhum.

Já foram lançados diversos livros sobre o rock brasileiro dos anos 80, época em que o Ira! surgiu. Você acha que a história daquela década já foi bem contada?
Não li todos os livros, mas li a biografia do Lobão, e tem um paralelo entre o meu e o dele. Eu narro a cena paulistana da década de 80, e ele descreve a carioca. Mas, por melhor que tenha um bom trabalho jornalístico, será sempre a visão particular de quem escreveu. Os anos 80 foram uma época muito rica de contradições e polêmicas. Estávamos testando os limites do fim da censura e do uso de drogas. É um período de excessos, que teve os primeiros artistas a se declararem com HIV, as prisões dos Titãs e do Lobão, a homossexualidade do Renato Russo. Foi muito mais rico que esse mar de poodles que está hoje aí. Atualmente, a cena do rock está muito comportada. É tudo maquiagem. O pó que os artistas passam hoje é na cara, não é no nariz.

Você vai lançar um novo disco solo?
Vai sair no mês que vem e vai se chamar ‘Perigoso’. Serão dez faixas, entre inéditas e versões para ‘As Minas do Rei Salomão’, do Raul Seixas; ‘Dois Animais Na Selva Suja da Rua’, do Taiguara, que foi gravada pelo Erasmo Carlos; ‘Não Há Dinheiro Que Pague’, do Paulo César Barros, que fez sucesso com o Roberto Carlos; além de uma versão blues para a balada ‘Como é Que Eu Vou Poder Viver Tão Triste’, do cantor Paulo Sergio. A faixa título, ‘Perigoso’, eu fiz inspirado no Johnny Cash, um cara que foi e voltou do inferno várias vezes.

Por você, existe a possibilidade de, mesmo que daqui a muitos anos, o Ira! voltar, nem que seja para apenas um show?
Hoje, não sei se os outros três são tragáveis para mim. Não é algo que desejo nesse momento, mas, depois que o Maluf deu a mão para o Lula, nada é impossível. LSM

sábado, 8 de setembro de 2012

Prima roqueira de Regina Casé faz sucesso como cantora

Era para ela estar no elenco de ‘Avenida Brasil’, assim como aconteceu com seus amigos Bruno Gissoni e Ronny Kriwat, com quem dividia cenas em ‘Malhação’, onde atuou como a divertida personagem Lorelai em 2010 e 2011. Acontece que, na ocasião do convite para os testes da novela, no ano passado, Luiza Casé estava soltando a voz na Austrália com sua banda de rock, Os Gutembergs. Parece que o destino está mesmo levando a mais nova artista da família Casé (ela tem 23 anos e é prima de segundo grau de Regina Casé) a trocar os sets de filmagens pelos palcos.  “Adoro os dois universos: cantar e atuar. Mas, agora, estou mais na música”, admite.

Se por um lado ela se afastou da TV, sua voz continua lá. Luiza pode ser ouvida na trilha da novela ‘Gabriela’, com a canção ‘Morena’, autoria de Mu Chebabi, diretor musical do ‘Casseta & Planeta’ que também participa da faixa. No cinema, no sucesso de bilheteria ‘E Aí, Comeu?’, lá está a voz de Luiza de novo, cantando ‘Vidro Fumê’, também com Mu Chebabi. “Quando soube que estavam pedindo músicas para ‘Gabriela’, mal acreditei, porque a trilha original é a mais incrível de todos os tempos. Morri de emoção quando vi o CD da nova versão da novela, e lá está o meu nome, entre Djavan, João Bosco, Elba Ramalho...”, comemora.

A surpresa é quando se percebe que o gosto de Luiza passa longe das canções tradicionais de MPB apresentadas na trilha: ela é apaixonada por rock e blues. O que difere também da imagem de sua prima mais famosa, apresentadora do programa ‘Esquenta’, mais ligada ao funk e ao samba. “A Regina é muito culta, gosta de todo tipo de música, não tem restrições a nenhum estilo”, defende. “Eu gosto de Led Zeppelin, Eric Clapton, Buddy Guy. Acho que existem cada vez mais pessoas da minha geração ligadas nesses sons. Eu mesma queria ter nascido na época do Woodstock”, suspira a cantora e atriz.

No próximo dia 18, ela interpreta um repertório repleto de músicas de seus ídolos, acompanhada por veteranos do blues carioca no bar Lapa Café. O guitarrista do Blues Etílicos, Otávio Rocha, é dos mais entusiastas de sua carreira. “Participei de um show com ele no Circo Voador mês passado e foi incrível. O Otávio quer produzir um disco solo meu, cantando músicas inéditas e clássicos”, antecipa.

NASCIDA PARA SER SELVAGEM
A vocação para as artes começou desde cedo, em casa mesmo. Luiza é filha do produtor de cinema Augusto Casé (‘Cilada.com’, ‘Muita Calma Nessa Hora’, ‘Ó Paí, Ó’, ‘E Aí, Comeu?’) e da coreógrafa Andrea Maciel. “Eles me enfiavam nos palcos desde pequena”, lembra ela.

Como boa roqueira, Luiza cultiva seu lado rebelde e selvagem. “Adoro transgredir. Quando tinha 16 anos, a diversão era entrar nas boates me passando por maior de idade. Estudei no tradicional Colégio Santo Inácio, em Botafogo, e fui suspensa 14 vezes”, orgulha-se ela, que atualmente cursa Direito na PUC. Até o momento, registre-se, sem nenhuma advertência. LSM (foto Maíra Coelho)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alanis morre sete...

Um gaiato disparou certa vez a infame frase: “Todo mundo só morre uma vez, mas a Alanis morre sete...”. A brincadeira, que repercutiu da Internet às mesas de bar, encontra na cantora canadense um fundo de verdade. “Nos meus momentos espirituais, costuma me ocorrer esse pensamento: tenho um grande medo de morrer”, assume Alanis Morissette.

A verdade é que, com 17 anos de carreira, disco novo na bagagem, ‘Havoc And Bright Lights’, Alanis já está imortalizada na história da música pop mundial. Ela, no entanto, não se conforma com isso, e conta que a morte é um assunto recorrente em sua mente. “Penso muito nisso. Não sou uma pessoa religiosa, mas adoro as religiões, passeio por várias, e tiro de cada uma algo de bom para mim”, revela.


Vale recordar que Alanis já foi Deus no cinema. Ela assumiu o papel do Todo-Poderoso no filme ‘Dogma’, em 1999, e, em certa ocasião, ela mesma definiu seus shows como “uma experiência religiosa com o público”. “Quando estou no palco e recebo o reconhecimento das pessoas, é algo muito especial. São os momentos em que esse meu lado espiritual me faz pensar: ‘O que vale na vida é isso’. É algo até telepático que sinto com a plateia”, classifica.

Ela está vivendo, de fato, um momento muito especial, mas desta vez não se trata de comunhão com os fãs. Alanis é mãe recente de Ever, 8 meses, e compara a maternidade com sua profissão. “Esse meu novo disco, eu gravava e, nos intervalos no estúdio, eu amamentava. São duas paixões enormes que tenho na vida”, derrete-se.


PAIXÃO BRASILEIRA
Alanis Morissette já é figurinha fácil no Brasil. Vá lá, nem tanto quanto Billy Paul e Dionne Warwick, que, ano sim, outro também, estão sempre batendo ponto em palcos por aqui. Mas, desde 1996, Alanis já esteve seis vezes no País. Se apresentou no ‘Domingão do Faustão’, em ‘Malhação’ e na novela ‘Celebridade’. “Tenho lindas memórias dessas minhas passagens pelo Brasil. É um público apaixonante”, elogia.

Mas isso a gente já sabe, não é? Aliás, dez entre dez artistas internacionais que vêm por aqui dão essa mesma declaração. Além do público, há algum nome da nossa música que faça a sua cabeça, Alanis? “Eu já morei com cinco brasileiras, e todas me davam vários discos de cantores e bandas do Brasil, que ouvi muito durante um período da minha vida. É uma música maravilhosa, sem dúvida, mas, confesso, não lembro de nenhum nome para te citar agora”, lamenta ela, emendando rapidamente. “Ah, mas tem mais uma coisa que eu admiro muito nos brasileiros: o senso de humor. Inclusive, é bem parecido com o humor canadense”, compara.

O Brasil está mesmo em sua mira. Nos últimos dias, sua página no Facebook estava repleta de postagens em português. Seu novo álbum chegou à primeira posição na iTunes Store do Brasil e segue firme entre os mais baixados. A turnê anterior no País, em 2009, passou por 11 cidades e, nesta volta, ela passa por sete capitais. “A cada apresentação eu gosto de mudar o roteiro. Tem músicas que quero cantar e que nem estão ainda bem ensaiadas. Eu defino o que vai para o palco assim: sento no chão com os outros integrantes da banda e a gente coloca todos os discos no chão e cada um vai escolhendo uma que gostaria de tocar. Os mais novos no grupo preferem as canções mais recentes, e os outros mais velhos acabam votando nas mais antigas, como as do meu disco ‘Jagged Little Pill’. Por isso que cada show pode ter um repertório exclusivo”, detalha. LSM