sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O poeta está vivo

Ao ouvir a voz de Cazuza cantando ‘Exagerado’, purinha, sem acompanhamento algum, saindo das caixas de som de um estúdio no Jardim Botânico, todos os presentes — até mesmo os mais acostumados com tal experiência — quase deixam escorrer lágrimas.

“A força está ali: essa coisa do registro da voz do cantor é uma captura da alma, da própria essência do cara”, classifica Guto Goffi, baterista do Barão Vermelho, banda que dividiu com Cazuza nos anos 80. “Só a voz dele, sem a imagem, a emoção já vem com tudo... imagina com a imagem!”

Ele fala da aparição do ídolo, cantando cinco músicas em holografia, no ponto alto do show que amigos e parceiros do poeta do rock preparam para apresentar na Praia de Ipanema na noite deste domingo, no palco montado em frente à Rua Paul Redfern. Acompanhamos um ensaio para o ‘GVT Music — Show Cazuza’, que já passou por São Paulo no final de novembro e agora aporta no Rio, em apresentação gratuita e aberta ao público.

No estúdio, além de Guto Goffi, os chapas George Israel, Arnaldo Brandão, Leoni, Rogério Meanda e Nilo Romero discutem os últimos detalhes dos arranjos, que precisam estar supersincronizados com a gravação da voz do cantor — o badalado holograma só aparece na hora.


“Não tem uma pessoa que nunca tenha ouvido falar do Cazuza ou não conheça alguma música”, ressalta George Israel, integrante do Kid Abelha e coautor, com Cazuza e Nilo Romero, do sucesso ‘Brasil’, eternizado na voz de Gal Costa (que participa do espetáculo em Ipanema, assim como o ex-RPM Paulo Ricardo). “Nós, da banda, não vemos o holograma do palco, porque ficamos de costas para ele. Mas, em São Paulo, a cara das pessoas na plateia chorando quando ele aparece foi muito emocionante.”

Antigo parceiro de Israel no Kid Abelha, Leoni é dos poucos que conseguem dar uma espiadinha na novidade. “É que tem uma música que eu não toco, aí dá para relaxar e ficar olhando. A criação da holografia foi baseada em fotos e vídeos de arquivo dele. Eu, que conheci bem o Cazuza pessoalmente, posso garantir: é exatamente como ele se mexia, os mesmos trejeitos que fazia nos shows”, atesta o artista, que compôs ‘Exagerado’ ao lado de Cazuza e Ezequiel Neves.

Os músicos-amigos celebram ainda a oportunidade de fazer com que novas gerações possam ter uma experiência próxima da energia que havia em um show de Cazuza. “Muita gente não teve o prazer de vê-lo ao vivo. Em São Paulo, eu estava muito temeroso com a reação do público, que acabou sendo incrível. Agora para o Rio eu já relaxei, quero ir lá e tocar!”, entusiasma-se Guto Goffi.

Emoção é uma palavra que resume bem este projeto. “Fiquei com uma saudade imensa dos velhos tempos do Barão Vermelho”, derrete-se o baterista. “Esse é um projeto muito inovador, porque, quando a pessoa morre, acabou, não tem jeito de negociar. E de repente o Cazuza vai participar de um show com a gente, cantando várias músicas. Então, nesse caso, não acabou!”

E, quem sabe, depois do show, não valha dar uma passadinha no Baixo Leblon? Vai que o poeta do rock esteja por ali, como fez tantas vezes em sua vida breve, cantando e bebendo a saideira? LSM (foto: Paulo Almeida)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Metaleiras

Com metais em brasa e percussão pulsante, a Damas de Ferro, banda de fanfarra formada só por mulheres, se prepara para estrear no Carnaval 2014 

‘É fanfarra, mas sem fanfarrões!”, decretam, quase em uníssono, as integrantes da Damas de Ferro, orgulhosas ao se proclamarem a primeira banda carioca de fanfarra (grupo musical formado por instrumentos de sopro de metal e de percussão) só de mulheres. “Os meninos estão doidos, querem participar da banda, mas só se for vestido de mulher!”, diverte-se a trombonista Carol Schavarosk.


Elas integram o que chamam de neo-fanfarrismo carioca, uma espécie de movimento no qual destacam-se também grupos como Orquestra Voadora (boa parte das meninas da Damas de Ferro veio do bloco da OV), Os Siderais, Sinfônica Ambulante, Cinebloco e Go East Orkestar. Ao som de trompetes, trombones, saxofones, tubas, caixas e alfaias, e repertório eclético, que inclui versões para clássicos de Belchior (‘Velha Roupa Colorida’) a sucessos da vez como ‘Get Lucky’, do Daft Punk, elas se preparam para estrear no Carnaval de 2014.

“Já estamos chamando a atenção nos ensaios abertos que fazemos no MAM (Museu de Arte Moderna) ou no Parque Guinle. Porque não é comum, a mulher está inserida no mundo da música mais como cantora do que como instrumentista. Você não vê muitas mulheres tocando tuba, por exemplo. A Damas de Ferro vai ter esse charme a mais”, ressalta Carol.

A busca pelas instrumentistas foi uma saga. “No início, achei que não iria além de um quarteto, até que, pouco a pouco, começamos a encontrar outras meninas que tocavam sopros ou percussão”, comemora Bubu Gabi Góes, que toca surdo e também é produtora cultural.

Todas, aliás, têm outra atividade além da música. E dão seu jeito para espremer no tempo livre a Damas de Ferro e ainda a família e namoros. Mas, às vezes, rola estresse. “Meu marido reclama muito que não tenho tempo para nada. Tento conciliar os ensaios com os dias das reuniões dele”, conta a trompetista (e bióloga) Maysa Salles.

Mas elas estão entusiasmadas. E, mesmo com tantas mulheres tocando juntas, juram que não temem a eclosão de uma TPM coletiva. “Mesmo na TPM, a gente está pegando leve, porque estamos com muita vontade de apresentar esta banda”, entusiasma-se Sabrina Bairros, saxofonista e publicitária.

A trompetista (e designer) Marcela de Paula, porém, faz uma ressalva: “Ah, só não pode uma aparecer com a saia igual à da outra!”, diverte-se.

E para lidar com o assédio da rapaziada animada no Carnaval, como vai ser? “Sempre vai ter um para soltar uma piadinha. Já ouvi: ‘Tá sobrando mulher aí, passa uma pra mim!’ Olha, se a cantada for original, até que pode ter chance”, provoca Irene Milhomens, trombonista e bailarina.

Contar apenas com mulheres na escalação, acreditam as integrantes da Damas de Ferro, tem ainda uma outra vantagem: “Na hora de passar o chapéu, só com meninas, esperamos que as pessoas se entusiasmem mais a dar um dinheiro”, brinca Sabrina, ao que Thaís Bezerra, tocadora de caixa, completa: “Mas o apelo não pode ser só por sermos mulheres... Tem que ter qualidade!”, decreta. LSM (fotos Fernando Souza) 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Clube da Esquina carioca

Na verdade, não é em uma esquina, mas bem no meio de um quarteirão na rua Martins Ferreira, em Botafogo, mais especificamente no número 48. Porém, é ali que reside, desde quinta-feira, um pedacinho do famoso Clube da Esquina de Milton Nascimento. Filho de Beto Guedes, um dos pioneiros do tal “clube” mineiro, Gabriel, 35 anos, abriu, no endereço onde funcionou por anos o Espaço Cultural Maurice Valansi, uma filial do bar Godofredo (homenagem ao avô, um notório compositor de choros), sucesso há quatro anos no boêmio bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte.

“Vai uma pinguinha aí?”, convida o anfitrião, esbanjando mineirice, assim que chega nossa equipe (ainda eram 11h da manhã, registre-se). “Entre outras marcas, tem aqui uma cachaça especial do norte de Minas, Viriatinha, que é pau a pau com as melhores”, destaca.

Além das opções etílicas e gastronômicas que remetem a Minas Gerais, é claro que o prato principal do Godofredo é a música. Com instalações temáticas do Clube da Esquina e repleto de instrumentos pendurados pelas paredes, assim como sua matriz em Belo Horizonte, o espaço é um convite à canção.

“Vai ser exatamente como é lá!”, garante Gabriel, que, no meio da noite, costuma surpreender os clientes ao tocar clássicos de seu pai no piano em uma canja não-programada. “A ideia é, quem quiser, pegar um violão, um sax, um trompete, um baixo ou sentar ao piano (tem um de cauda bem no meio do bar!) e fazer um som. O Milton Nascimento é meu padrinho, e ele sempre disse que o lance legal do Clube era a amizade. E eu mesmo já estou fazendo uma rede de amigos músicos no Rio”.

Entre esses novos chapas, está Daniel Jobim, neto do Tom, atração de sexta-feira no Godofredo. “Estou em um ‘ping-pong’ danado entre Belo Horizonte e o Rio. Aluguei um apartamento no Humaitá, mas ainda conheço pouco a cidade. Ao menos, já aprendi onde é o Túnel Rebouças e como chega na casa do Daniel, em Ipanema”, diverte-se Gabriel Guedes.

Aos sábados, o bar convida músicos da nova geração e, aos domingos, o palco está aberto. Entre os nomes já programados estão Toninho Horta, Milton Nascimento, Yuri Popoff, Hamilton de Holanda e Beto Guedes. O pai de Gabriel, inclusive, é o principal responsável por despertar a paixão do filho pelo Rio. “Eu amo essa cidade! Desde criança, quando meu pai vinha tocar aqui. Lembro de ficar deslumbrado olhando as praias na Zona Sul e aqueles gramadões no Aterro do Flamengo”, recorda. “E aqui onde abrimos o bar, de lambuja, ainda tem a vista do Cristo ali do lado”, comemora.


E, atestando a emblemática frase da música ‘Clube da Esquina 2’, que diz que “sonhos não envelhecem”, Gabriel antecipa, entusiasmado, seus próximos projetos: “Depois de estabelecer o Godofredo no Rio, quero montar um em São Paulo. É importante manter vivas as músicas do Clube da Esquina”, decreta.

GOSTINHO DE MINAS
Para a empreitada no Rio, Gabriel Guedes está com mais três sócios: os também mineiros Pablo Curty e Ramon Curty, e o chef Renato Costa, único carioca da equipe. É ele quem assina o cardápio com influências da cozinha mineira, apresentando pratos que mesclam o tradicionalismo dos ingredientes das fazendas com a cozinha contemporânea.


“Acho que o carro-chefe do Godofredo vai ser o pastelzinho de angu, que é uma coisa que não se vê muito aqui no Rio”, elege Renato (serão seis unidades, nos sabores couve com torresmo e bacon; palmito com tomate seco e cheddar; e frango caipira com requeijão, por R$ 15,90). O chef foi professor de gastronomia em Sidney, na Austrália, e serviu até a estrela do cinema Nicole Kidman.

“Outros destaques, acredito que serão a carne de panela na cerveja preta (R$ 31,90) e a panceta de porco (R$ 32,90), que em Minas é chamada torresmão de barriga. É a tradicional panceta assada, mas com molho de tamarindo”, descreve. LSM (fotos Felipe O'Neill) 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Secos, molhados e brigados

Parece que um gato preto cruzou o caminho do grupo Secos & Molhados, um dos mais importantes e populares da história da música brasileira. Logo após o imenso sucesso, no início dos anos 70, o trio formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad se desfez tão rápido quanto despontou ao estrelato. E, desde então, disparam cobras e lagartos uns contra os outros, João de um lado, Ney e Gerson do outro. Este último acaba de lançar sua versão da história da banda no livro ‘Meteórico Fenômeno — Memórias de um ex-Secos & Molhados’ (editora Anadarco, 135 págs., R$ 56).

“O João Ricardo é patético: já declarou tantos absurdos contra mim e contra o Ney que achei por bem escrever uma visão tranquila e amadurecida do que vivi. Durante os anos, muita coisa foi deturpada por essas declarações do João Ricardo. É um desrespeito ao público que tanto nos cultua até hoje”, desabafa Gerson Conrad.

O livro traz ainda um CD, com duas músicas recentemente gravadas pelo autor: a clássica ‘Rosa de Hiroshima’, que ele fez para a poesia de Vinicius de Moraes, mas nunca havia cantado, e ‘Direto Recado’, uma mensagem ao seu desafeto em forma de canção (“Em boca fechada não entra mosquito e também não gera conflito”, “Talvez fosse melhor deixar que vivesse o mito” e “Já não temos mais que ser nem secos, nem molhados” são alguns trechos da letra).

Apesar de fartamente ilustrada, a publicação não traz João nas fotos históricas. “Ele negou o uso de imagens, mas, se você entrar no site do Secos & Molhados que ele fez, eu posso aparecer nas fotos ao lado dele. É uma pobreza de espírito total”, decreta Conrad.

João Ricardo afirmou que o ex-colega “valorizou muito sua participação no grupo, coitado. Nunca tocou bem”. “Mais uma vez, ele foi desrespeitoso comigo”, lamenta Conrad. “Ele só não percebe que a formação mágica e reconhecida é a que eu participei. Das outras, ninguém sequer se lembra. Foi um encontro mágico. O Secos é comigo e com o Ney!”.

Gerson Conrad e Ney Matogrosso, no lançamento do livro

Apesar de os três artistas estarem aí vivos e saudáveis, parece que ainda é muito difícil que o trio volte a se reunir, mesmo que em uma ocasião especial apenas. “Já me ofereceram R$ 5 milhões para isso! Mas o João quer ser sozinho o pai da história”, descarta.

E a tal questão, tratada inclusive no livro, sobre o grupo norte-americano de rock Kiss ter imitado as maquiagens do Secos? “Até hoje, ninguém tem a resposta da verdade. Quem me dera toda polêmica fosse leve como essa!”, diverte-se Conrad. LSM

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Clássico dos anos 70 está de volta em LP

Cultuado até no exterior, ‘Maria Fumaça’, da Banda Black Rio, é relançado em seu formato original

Imagina o rei do soul norte-americano James Brown se jogando em uma roda de samba em Vaz Lobo, na Zona Norte carioca? É mais ou menos por aí o som da Banda Black Rio, que surgiu no subúrbio do Rio nos anos 70, época que a música negra tinha uma excelência muito grande. E o melhor exemplo dessa mistura única de jazz, funk e soul com ritmos brasileiros é seu célebre disco de estreia, o raro ‘Maria Fumaça’, de 1977, relançado agora em vinil de 180 gramas (com melhor qualidade de áudio) pela Polysom, gravadora de discos de vinil de Belford Roxo.

“Fomos tocar na Europa recentemente e lá eu vi vendendo um LP desses por 300 euros (cada bolacha nova da Polysom sai a R$ 79,90)”, espanta-se o tecladista William Magalhães, filho do fundador da banda, o saxofonista Oberdan Magalhães (a formação original se desfez quando Oberdan morreu, em 1984, em um acidente de carro). “É importante este LP estar novamente em voga, para conscientizar os brasileiros sobre a relevância desse nosso patrimônio cultural, que, infelizmente, é mais reconhecido no exterior”, lamenta ele.

Atualmente, é William quem toca a Black Rio e, à frente da nova formação fez muita gente chacoalhar com uma homenagem a James Brown no encerramento do festival Back2Black, no último dia 17. “Músicas do ‘Maria Fumaça’, como ‘Mr. Funky Samba’ e a própria faixa-título (que foi tema de abertura da novela ‘Locomotivas’, da Globo), a gente não pode deixar nunca de incluir no repertório”, ressalta o tecladista.

“A banda influenciou até grupos como o inglês Jamiroquai, que já declarou isso, e no hip hop quase todo mundo foi influenciado pela Black Rio”, derrete-se William, anunciando que vêm mais lançamentos por aí. “Fizemos um disco que saiu só la fora, o ‘Super Nova Samba Funk’, com Caetano Veloso, Gil, Seu Jorge e Elza Soares, que em 2014 finalmente vai ser lançado no Brasil”, comemora ele. LSM

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Você lembra, lembra?

É uma biografia autorizada, mas não é chapa branca. Quem garante é a jornalista Vanessa Oliveira, autora de ‘Tudo de Novo — Biografia Oficial do Roupa Nova’ (Editora Best Seller, 540 págs., R$ 50). “Eu falei para eles que iria escrever esse livro na raça, mesmo sem autorização. Até que, depois de seis meses insistindo com o empresário do grupo, eles finalmente me receberam e toparam participar”, conta Vanessa.

Na verdade, nem todos do sexteto viram com bons olhos o destemido projeto da autora. “Qualquer um ficaria grilado quando alguém que você não conhece diz querer  escrever sobre sua vida.  Nós mesmos já pensamos em escrever a nossa biografia, mas com essa vida tão enlouquecida de compromissos, isso se tornou impossível. Sentimos firmeza no trabalho da Vanessa e aceitamos dar depoimentos para o livro. Só o Serginho (Herval, baterista)  não curtiu”, ressalta Ricardo Feghali, tecladista do Roupa Nova. “Nós somos seis pessoas diferentes. Eu   gosto de estar perto da galera, sou o cara  que  bate papo, tira foto em todos os lugares, mas ele não gosta disso. O Serginho  prefere, e tem todo o direito a isso,  manter sua privacidade,  não gosta de ter  a vida   exposta, não gosta de estar em todos os lugares tirando fotos”.

Voto  vencido (“Na banda, salvo em  em situações como uma renovação de contrato, o que a maioria  decidir os outros têm que acatar”, explica Feghali), Serginho  não compareceu ao   lançamento de ‘Tudo de Novo’, este mês em uma livraria na Barra da Tijuca. “Não entendo, eles sempre foram muito certinhos. O único que teve problemas com bebida foi o (vocalista) Paulinho, e curiosamente, foi o primeiro a abrir as portas de sua casa para mim”, detalha Vanessa.

Esse lado ‘certinho’ do Roupa Nova, que isolou o grupo das manchetes sensacionalistas, teve um efeito colateral:  fez com eles colecionassem um punhado de críticas na imprensa — graças também a. Aliás, os embates deles com os jornalistas é histórico, e estão devidamente relatados na biografia. “Não usamos drogas, não somos pessoas enlouquecidas, daquelas que quebram tudo. Essas coisas que a imprensa acha que gera algum glamour  a gente definitivamente não tem”, define o tecladista. “Mas essa relação está mudando, já assumem que temos valor,  isso depois de 33 anos de carreira”.

Outras  tretas que rolaram durante a trajetória do grupo também estão lá, incluindo um mal estar até hoje não resolvido com Gal Costa — a cantora, inclusive, não deu entrevista para o livro. “A música ‘Chuva de Prata’  foi feita por Ed Wilson e Ronaldo Bastos para  entrar em um  disco do Roupa Nova. Quando o (produtor) Mariozinho Rocha ouviu,  falou era  a cara da Gal e que precisava dessa música para popularizar ela  no mercado. O Roupa Nova cedeu porque foi garantido  que ‘Chuva de Prata’ não seria música de trabalho, mas como o disco dela não estava vendendo,   tiveram que recorrer à música  e foi um sucesso”, explica a autora, e Feghali competa: “O Mariozinho também disse que sempre que alguém perguntasse, a Gal  diria que era uma música originalmente do Roupa Nova. Só que ela foi no  programa do Chacrinha e, mesmo quando ele a perguntou sobre a história da canção, ela sequer citou a gente. Nunca mais falamos disso, deixamos para trás”, lamenta ele.


A história da banda não acaba em ‘Tudo de Novo’. O Roupa Nova já tem  novos capítulos em  sua trajetória.  “No ano que vem vamos lançar um filme, vai se chamar ‘Todo Amor do Mundo’. Será  um documentário  contando nossa história  com diversas participações especiais”, antecipa Feghali.

O Roupa Nova acaba de liberar a caixa   ‘Roupa Nova Music’, com Roupa Nova — Nossa História’, com cinco DVDs e um EP trazendo seis músicas inéditas. Atenção: não confundir com a caixa de quatro CDs ‘Roupa Nova — Nossa História’, que a Sony, antiga gravadora deles antes de se tornarem independentes, lançou também este ano. “Isso foi o que chamo de vampirismo da gravadora. Sempre que a gente  vai  lançar alguma coisa, eles  lançam uma coisa parecida para competir e confundir as pessoas”, reclama Feghali, sobre este  lançamento  que, ao que parece, não seria autorizado pela banda. LSM

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Feira legal

Como Marcelo D2 se transformou de inimigo público no empresário bem sucedido, que abre lojas itinerantes e distribui produtos personalizados em quermesse montada nos shows de lançamento do novo CD

Quase nada pode parar Marcelo D2. Na entrada de um estúdio em Botafogo, um comboio 'bossanovístico' atravessa seu caminho e ali não tem jeito: ele para pelo menos uns dez minutinhos para celebrar afinidades com Marcos Valle, Carlos Lyra e Wanda Sá. João Donato saíra minutos antes, do ensaio para a gravação do DVD dela. "Pô, vocês têm que ir no meu show", convida Marcelo D2, que ensaiaria logo em seguida. "Estou lançando meu novo CD, 'Nada Pode Me Parar', e vou montar uma feira com rádio própria, tocando todas as pessoas que eu sampleei, entre elas você, Marcos Valle (o refrão 'É mentira...', na música 'Contexto' do grupo Planet Hemp, que D2 integrou, é chupado de 'Mentira', de Valle). E vai ter também a Barraca da Larica e brincadeiras como Acerte o Baseado Na Boca do D2", detalha, sem perceber uma cara de semiconstrangimento que toma Wanda Sá e Carlos Lyra.

Talvez mais acostumado com o entusiasmo legalizado de D2, Marcos Valle dá linha em um papo que termina com abraços calorosos dos quatro e o convite dela para que D2 também compareça ao show que fará com os amigos.

Já na mesa do boteco da esquina, entre um gole e outro de cerveja enquanto sua banda aperta as carrapetas dentro do estúdio para o ensaio começar, ele conta ainda que a tal Feira MD2 - Nada Pode Me Parar terá também  Playstations com jogos Fifa 14 (premiando com camisas e tênis) e Skate 3 (premiando com camisas e shapes Drop Dead), Print Gram (impressão de fotos diretamente do instagram para todos que postarem lá fotos do evento com a hashtag #nadapodemeparar) e as barracas Qualé A Música, Retrato Falado (que faz caricaturas do público em um cartaz 'Procura-se') e Acerte Os Felas (inspirado em uma música do disco novo, e premiando com latas de cerveja). Os brindes, que incluem ainda papéis para enrolar cigarros (a popular seda) e isqueiros, são todos personalizados com a marca MD2.

Afinal, como o ex-inimigo público número 1 (de quando foi preso com o Planet Hemp por cantar músicas que fazem apologia à maconha, em 1997) se transformou em um bem sucedido homem de negócios, sendo procurado para agregar valor a grandes marcas como Fifa e Nike.

"Quem me chamava de inimigo público eram delegados, juízes, políticos... agora é a vez deles irem para trás das grades", provoca, referindo-se às prisões do Mensalão. "Nasci em Madureira, fui criado no Andaraí, e vivi muitos anos na Lapa. Conheço tudo desses bairros e antes do sucesso eu fui camelô por muito tempo, cheguei a ter barraca no Catete, onde vendia muambas que trazia do Paraguai. Acho que sempre fui um bom vendedor. Vendi também em lojas de moveis no Catete, trabalhei no setor de guarda-chuvas da Mesbla (extinta loja de departamentos, muito popular nos anos 80) e em loja de roupas em Maringá, no Paraná. E recentemente abri duas 'pop-up stores' (uma espécie de loja itinerante) em São Paulo e Nova York, onde vendi produtos personalizados como roupas e acessórios, CDs, skates. É por isso que estou montando essa grande feira na nova turnê".

A inspiração para criar seus próprios produtos, recorda D2, veio do grupo norte-americano de hard rock Kiss. "Desde guri eu ficava fascinado com o fato de eles fazerem vários produtos com a marca da banda, desde bonequinhos até vibrador, que trazia na ponta a língua do Gene Simmons (o icônico baixista do Kiss, que se veste como o homem-morcego)", detalha, às gargalhadas. "Mas não vou chegar a esse ponto, pode ficar tranquilo", garante.

A despeito de todo o sucesso como empresário, Marcelo D2 não se considera um homem de negócios, e atesta que seu ramo é mesmo a música. "Eu acordo todo dia às três da tarde, não dá para ser executivo assim, né?", diverte-se.

NA ESTRADA
A turnê 'Nada Pode Me Parar' roda o Brasil até o fim do verão, quando parte para Paris e, de lá, para a Europa e Ásia, durante o verão do hemisfério norte, passando por 18 países.

"Eu fiz um clipe para cada uma das 15 músicas desse disco novo, mas até agora só mostrei três. Então, eu tenho ainda 12 clipes inéditos, que vou lançando durante a turnê. O próximo será da música 'Você Diz Que o Amor Não Dói', que gravei em uma favela de Angola, com rappers de lá, e vai sair já na semana que vem", antecipa D2.

MANTENDO O RESPEITO
Foi um baita transtorno a prisão com o Planet Hemp nos anos 90, mas hoje, olhando em retrospecto, Marcelo D2 orgulha-se de ter aberto portas para o diálogo na sociedade sobre a legalização da maconha: "As pessoas sempre quiseram associar a maconha ao marginal. Eu nunca roubei dinheiro de ninguém, nunca desviei verbas públicas. Acho que depois do Planet, as pessoas começaram a ver que o cara que fuma maconha também pode ser legal. Essa foi a aposta que eu fiz. E paguei o preço".

Perguntado se acredita que um dia ainda verá a maconha ser legalizada no Brasil, D2 hesita, pensa, balança a cabeça... e desconversa: "Para mim, já está legalizada há muito tempo!". LSM (foto: Fernando Souza)