segunda-feira, 3 de março de 2014

Sassaricando na Saara

É no popular mercado carioca que a cantora e estrela de musicais Beatriz Rabello, filha de Paulinho da Viola, se prepara para desfilar na Portela e anuncia seu primeiro CD

Semana sim, outra também, Paulinho da Viola liga para a filha Bia, para juntos irem bater perna na Saara (a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, no Centro). “Ele me ensinou a gostar daqui, esses passeios são uma coisa muito nossa”, conta Beatriz Rabello, enquanto fuxica umas saias supercoloridas em uma lojinha no grande centro comercial a céu aberto. “Meu pai vem atrás de parafusos, coisas de marcenaria em geral, bateria de relógio... Ele coleciona um monte de coisas, adora isso. Eu gosto de fazer as bijuterias que uso, então aqui tem muita opção. Além de roupas para palco e, claro, coisas para fantasias de Carnaval.”


Na madrugada de amanhã, Bia entra na Marquês de Sapucaí com a Portela, escola do coração também de Paulinho. Mas a cabeça não sai de ‘Samba, Amor e Carnaval’, o primeiro CD que ela, que é cantora e integra a banda do pai, finaliza em estúdio para lançar este ano. Conforme o próprio título sugere, todos os sambas que Beatriz Rabello escolheu falam de amor e Carnaval.

Paulinho dá força, inclusive gravou no disco a música ‘Só o Tempo’, de sua autoria, em dueto com a filha. Mas também está preocupado, e dá puxão de orelha: “Você está trabalhando muito! Faz teatro, faz não sei quantos bailes de Carnaval, pula Carnaval na rua e ainda vai desfilar na Portela! Claro que ia acabar caindo de cama!”, adverte o paizão, sobre o febrão de 39 graus que ela teve nos últimos dias.

Bia é mesmo espoleta pura. Formada em Jornalismo, enquanto não estreia em disco, pode ser vista nos palcos no badalado musical ‘Sassaricando’, em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana. Entre uma sessão e outra, encontra João Callado, produtor de seu disco. Um cara que, atesta Beatriz, dá corda para suas estripulias: “Entre inéditas e regravações, escolhi interpretar ‘Enredo do Meu Samba’, de Dona Ivone Lara e Jorge Aragão, que um produtor mais purista, daqueles defensores do samba de raiz, poderia torcer o nariz por ser mais do universo do pagode. Eu não tô nem aí... aliás, detesto esse termo ‘samba de raiz’!”, decreta.

Determinada, além dos palcos, a intrépida Bia quer bater um bolão (com o perdão do trocadilho) também nos campos. Vascaína que nem o pai (“Lá em casa, torcer pela Portela e pelo Vasco não é opção”, diverte-se ela), matriculou-se em aulas de futebol. “Me machuquei no primeiro dia!”, resigna-se, aos risos. “Mas depois do Carnaval volto a praticar! Nem sou entendida em futebol, mas sou doida para jogar. Acho que é algum trauma de infância, porque tive asma e sempre era dispensada das aulas de Educação Física.”

Aos interessados, a bela está solteira, e dá a dica: também adora dançar forró na Feira de São Cristóvão e curtir uma roda de samba no Beco do Rato ou no Trapiche Gamboa. “E amo as feijoadas na Portela!”, completa. “Nossa escola está com um samba lindo, estamos chegando para ganhar!”, promete, já com o coração apressado para entrar na Avenida. LSM (foto: Maíra Coelho) 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Som na rua

Já faz um tempo, músicos, produtores e o próprio público vêm reclamando que o circuito de espaços para shows no Rio está diminuindo em ritmo acelerado. “Percebemos que estávamos tocando cada vez menos aqui. E sempre nos mesmos lugares, para as mesmas pessoas e ganhando pouco”, desabafa Bernar Gomma, guitarrista do grupo Beach Combers, um dos muitos que, na intenção de sanar tal problema, está partindo para as praças e calçadas da cidade. “Quando nos apresentamos na rua, conseguimos alcançar um público novo, com a vantagem de não depender de ninguém, só de nós mesmos. Chegamos no local definido, montamos o som e atacamos, simples assim”.

Beach Combers na Cinelândia 

Com as caixas dos instrumentos na frente aberta a contribuições dos passantes, nomes como Astro Venga, Tree e Dominga Petrona, além do Beach Combers, podem surgir a qualquer momento em locais como Aterro do Flamengo, Praça São Salvador, Praça General Osório, Posto 9 (da Praia de Ipanema), Praça Saens Peña, Cinelândia, Largo do Machado, Praça 15, Parque dos Patins, Rua do Lavradio, Largo da Carioca e até em cima da Pedra do Arpoador.

Astro Venga, no Largo da Carioca

“Para a alimentação dos amplificadores, usamos uma bateria comum de automóvel ligada a um inversor. Não divulgamos as apresentações de rua com antecedência pois tudo pode acontecer antes de chegarmos ao local e definitivamente montarmos o equipamento”, explica Mindu, baixista do Tree.

Por “tudo pode acontecer”, entenda-se uma chuva inesperada ou sofrerem algum tipo de repreensão (leia mais no texto ao lado). Mais que o dinheiro (“Tem dias em que se tira uma quantia razoável e outros em que só se ganha para pagar o transporte”, contabiliza Mindu), são as histórias divertidas que fazem valer a aventura. “Um cara chegou no meio do show pedindo para usar o microfone e chamar o filho dele, que havia se perdido. Como nosso som é só instrumental, não temos microfone, então encaminhamos o rapaz até a Secretaria de Postura. No final, o cara voltou e me abraçou, dizendo que iria nos dar mil reais, e fez”, comemora Guzz The Fuzz, baixista do Beach Combers.

Um dos primeiros grupos a se aventurar pelas ruas cariocas, o Dominga Petrona já fazia tais apresentações em Buenos Aires, na Argentina, onde a banda foi formada. E desde lá reúne casos pitorescos registrados nessas intervenções urbanas.

“A gente tocou perto de um escritório que pertencia ao Ministério da Cidade. Era meio-dia e, após a primeira canção, um senhor muito bem vestido e muito educado nos pediu para parar, porque estava atrapalhando uma reunião. Respondemos: ‘Por favor, deixe a reunião para outro dia e venha ouvir a banda’. O senhor entrou no prédio e, depois da segunda música, voltou, perguntando quantos discos a gente tinha para vender. Ele comprou 30 discos, mas perguntou: ‘Agora vocês param de tocar?’ Paramos, afinal, nunca mais vai acontecer de tocar só duas músicas e vender 30 discos!”, diverte-se o baixista Cristian Kiffer.

Dominga Petrona

No Posto 9, dois meninos de 10 anos emocionam tanto a plateia quanto os próprios músicos do Tree, quando se apresentam por lá.

“Eles sempre vêm tocar bateria nos intervalos do show e chamam a atenção de quem circula pelo local. É muito gratificante para nós, sobretudo porque um deles tem origem humilde e testemunhamos ali uma oportunidade de despertar um novo talento nessa criança”, comove-se Mindu.

Tree, no Posto 9

Na Praça São Salvador, os ambulantes fizeram uma vaquinha para presentear o Beach Combers. “E disseram pra voltarmos lá toda semana!”, festeja Bernar. “Volta e meia recebemos também bilhetes com diversos elogios e até com propostas indiscretas”, revela.

Secretaria de Ordem Pública diz que houve erro de agente 
De acordo com a lei municipal número 5.429, que dispõe sobre a apresentação de artistas de rua nos logradouros públicos do município do Rio de Janeiro, são permitidas as manifestações culturais de artistas em espaços públicos abertos, mas é preciso respeitar requisitos tais como volume, horários e não atrapalhar a circulação de pedestres.

No entanto, nas últimas semanas, Dominga Petrona e Tree reclamaram de repressão do poder público durante suas apresentações, no Largo do Machado e em Botafogo. Procurada pelo DIA , a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) respondeu, através de sua assessoria de imprensa, que “houve um erro dos agentes, que já foram advertidos. Os artistas podem mostrar sua arte e até comercializar seus CDs, DVDs ou livros, a única coisa vedada a eles é cobrar ingresso”. LSM

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

‘Beijo gay na TV aberta já devia ter acontecido há muito tempo’

Vencedora do almejado prêmio Emmy — o chamado ‘Oscar da televisão’ — por sua carismática Dona Picucha do especial de fim de ano da Globo ‘Doce de Mãe’, que virou série exibida toda quinta-feira na emissora, Fernanda Montenegro fala aqui sobre a personagem e a premiação, além de passear por assuntos tão diversos quanto beijo gay, ‘Big Brother’, Copa do Mundo e a saudade do eterno parceiro, o ator e diretor Fernando Torres.

Agora é Emmy para lá, Emmy para cá... só se fala do Emmy, né? Parece até que seu sobrenome virou Fernanda ‘Emmy’ Montenegro... 
É, a vida é assim: perde-se um prêmio, mas aí depois ganha-se outro.

Você chegou a declarar, com a humildade que lhe é característica, que ganhar um Emmy ‘não muda nada’... é assim mesmo? 
Olha, claro que receber um prêmio dessa importância é algo a ser considerado por mim, sim. Entre todos os troféus que já ganhei, este é um dos mais importantes. Dá mais vontade de viver e, na medida do possível, alivia a vida, que ainda está boa.

Quando você diz “que ainda está boa”, soa algo pessimista... afinal, não podemos imaginar que a vida seja boa até o fim? 
Ah, claro. Eu realmente espero que a alquimia da vida me dê esta chance, de sentir que está bom para sempre!

O que tem da Fernanda Montenegro na personagem Picucha, essa senhorinha prafrentex? 
Se eu sou prafrentex ou ‘pratrazex’, quem convive comigo é melhor do que eu para avaliar... Mas, falando sério, acho que, de alguma maneira, sempre tem algo meu nas personagens que faço.

Para gravar ‘Doce de Mãe’, você tem ido diariamente ao Projac, em Jacarepaguá... É difícil essa rotina, de sair de Ipanema, com o trânsito que está na cidade atualmente? 
Só mesmo quem frequenta o Projac sabe o que significa esse deslocamento diário. E eu começo a gravar às 11h da manhã e só saio às 21h30 da noite, exausta.

Quando falamos em trânsito ruim, logo vem à mente o bordão ‘imagina na Copa?’ Você pretende ir a algum jogo? Já comprou seu ingresso? 
Não mesmo! Pretendo é viajar, porque as gravações acabam em março!

Notei que você, apesar de viúva, ainda usa aliança... 
Ah, mas essa aliança aqui é da personagem, a Picucha. Aprendi com a experiência que não adianta ficar usando joia quando você está atuando muito, porque tem que ficar tirando toda hora. Mas, ‘à paisana’, eu ainda uso aliança, sim, mas é só quando vou a algum evento fora do trabalho, o que é raro.

Você, que foi muito amada e amou muito, sente falta de um parceiro? 
Não, porque tenho meu parceiro ainda comigo, e vou ter para sempre. Construímos uma vida, em 60 anos juntos. Ele existe para mim em todos os momentos.

Já foi ventilada a informação de que você viverá uma homossexual na terceira idade, formando um par com a Nathalia Timberg... 
É, recebi o convite do (autor) Gilberto Braga para esse papel, mas nem tenho muito a acrescentar por enquanto, porque seria ainda para o ano que vem...

Mas qual é a sua opinião sobre o beijo gay na TV aberta? 
Nunca entendi essa demora. Já devia ter acontecido há muito tempo. No teatro, se beija muito na boca, mesmo pessoas do mesmo sexo. É um ato carinhoso, assim como poderia ser na testa ou na bochecha.

‘Doce de Mãe’ vai ao ar toda quinta-feira, depois do ‘Big Brother Brasil’... Você acompanha o reality? É uma daquelas pessoas curiosas em ‘dar uma espiadinha’? 
Olha, eu chego em casa tão cansada que nem tenho tempo... Não estou fugindo da resposta, não, é que depois de tomar banho e comer alguma coisa, o pouco tempo que me resta eu preciso assistir às notícias, ou, para relaxar, a alguma entrevista do Jô Soares ou da Marília Gabriela.

Você que já fez de tudo um pouco na TV, se fosse convidada a participar de algum tipo de reality show, toparia? 
Acredito que nunca passaria na cabeça de alguém me fazer tal convite! LSM (Foto Maíra Coelho)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O poeta está vivo

Ao ouvir a voz de Cazuza cantando ‘Exagerado’, purinha, sem acompanhamento algum, saindo das caixas de som de um estúdio no Jardim Botânico, todos os presentes — até mesmo os mais acostumados com tal experiência — quase deixam escorrer lágrimas.

“A força está ali: essa coisa do registro da voz do cantor é uma captura da alma, da própria essência do cara”, classifica Guto Goffi, baterista do Barão Vermelho, banda que dividiu com Cazuza nos anos 80. “Só a voz dele, sem a imagem, a emoção já vem com tudo... imagina com a imagem!”

Ele fala da aparição do ídolo, cantando cinco músicas em holografia, no ponto alto do show que amigos e parceiros do poeta do rock preparam para apresentar na Praia de Ipanema na noite deste domingo, no palco montado em frente à Rua Paul Redfern. Acompanhamos um ensaio para o ‘GVT Music — Show Cazuza’, que já passou por São Paulo no final de novembro e agora aporta no Rio, em apresentação gratuita e aberta ao público.

No estúdio, além de Guto Goffi, os chapas George Israel, Arnaldo Brandão, Leoni, Rogério Meanda e Nilo Romero discutem os últimos detalhes dos arranjos, que precisam estar supersincronizados com a gravação da voz do cantor — o badalado holograma só aparece na hora.


“Não tem uma pessoa que nunca tenha ouvido falar do Cazuza ou não conheça alguma música”, ressalta George Israel, integrante do Kid Abelha e coautor, com Cazuza e Nilo Romero, do sucesso ‘Brasil’, eternizado na voz de Gal Costa (que participa do espetáculo em Ipanema, assim como o ex-RPM Paulo Ricardo). “Nós, da banda, não vemos o holograma do palco, porque ficamos de costas para ele. Mas, em São Paulo, a cara das pessoas na plateia chorando quando ele aparece foi muito emocionante.”

Antigo parceiro de Israel no Kid Abelha, Leoni é dos poucos que conseguem dar uma espiadinha na novidade. “É que tem uma música que eu não toco, aí dá para relaxar e ficar olhando. A criação da holografia foi baseada em fotos e vídeos de arquivo dele. Eu, que conheci bem o Cazuza pessoalmente, posso garantir: é exatamente como ele se mexia, os mesmos trejeitos que fazia nos shows”, atesta o artista, que compôs ‘Exagerado’ ao lado de Cazuza e Ezequiel Neves.

Os músicos-amigos celebram ainda a oportunidade de fazer com que novas gerações possam ter uma experiência próxima da energia que havia em um show de Cazuza. “Muita gente não teve o prazer de vê-lo ao vivo. Em São Paulo, eu estava muito temeroso com a reação do público, que acabou sendo incrível. Agora para o Rio eu já relaxei, quero ir lá e tocar!”, entusiasma-se Guto Goffi.

Emoção é uma palavra que resume bem este projeto. “Fiquei com uma saudade imensa dos velhos tempos do Barão Vermelho”, derrete-se o baterista. “Esse é um projeto muito inovador, porque, quando a pessoa morre, acabou, não tem jeito de negociar. E de repente o Cazuza vai participar de um show com a gente, cantando várias músicas. Então, nesse caso, não acabou!”

E, quem sabe, depois do show, não valha dar uma passadinha no Baixo Leblon? Vai que o poeta do rock esteja por ali, como fez tantas vezes em sua vida breve, cantando e bebendo a saideira? LSM (foto: Paulo Almeida)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Metaleiras

Com metais em brasa e percussão pulsante, a Damas de Ferro, banda de fanfarra formada só por mulheres, se prepara para estrear no Carnaval 2014 

‘É fanfarra, mas sem fanfarrões!”, decretam, quase em uníssono, as integrantes da Damas de Ferro, orgulhosas ao se proclamarem a primeira banda carioca de fanfarra (grupo musical formado por instrumentos de sopro de metal e de percussão) só de mulheres. “Os meninos estão doidos, querem participar da banda, mas só se for vestido de mulher!”, diverte-se a trombonista Carol Schavarosk.


Elas integram o que chamam de neo-fanfarrismo carioca, uma espécie de movimento no qual destacam-se também grupos como Orquestra Voadora (boa parte das meninas da Damas de Ferro veio do bloco da OV), Os Siderais, Sinfônica Ambulante, Cinebloco e Go East Orkestar. Ao som de trompetes, trombones, saxofones, tubas, caixas e alfaias, e repertório eclético, que inclui versões para clássicos de Belchior (‘Velha Roupa Colorida’) a sucessos da vez como ‘Get Lucky’, do Daft Punk, elas se preparam para estrear no Carnaval de 2014.

“Já estamos chamando a atenção nos ensaios abertos que fazemos no MAM (Museu de Arte Moderna) ou no Parque Guinle. Porque não é comum, a mulher está inserida no mundo da música mais como cantora do que como instrumentista. Você não vê muitas mulheres tocando tuba, por exemplo. A Damas de Ferro vai ter esse charme a mais”, ressalta Carol.

A busca pelas instrumentistas foi uma saga. “No início, achei que não iria além de um quarteto, até que, pouco a pouco, começamos a encontrar outras meninas que tocavam sopros ou percussão”, comemora Bubu Gabi Góes, que toca surdo e também é produtora cultural.

Todas, aliás, têm outra atividade além da música. E dão seu jeito para espremer no tempo livre a Damas de Ferro e ainda a família e namoros. Mas, às vezes, rola estresse. “Meu marido reclama muito que não tenho tempo para nada. Tento conciliar os ensaios com os dias das reuniões dele”, conta a trompetista (e bióloga) Maysa Salles.

Mas elas estão entusiasmadas. E, mesmo com tantas mulheres tocando juntas, juram que não temem a eclosão de uma TPM coletiva. “Mesmo na TPM, a gente está pegando leve, porque estamos com muita vontade de apresentar esta banda”, entusiasma-se Sabrina Bairros, saxofonista e publicitária.

A trompetista (e designer) Marcela de Paula, porém, faz uma ressalva: “Ah, só não pode uma aparecer com a saia igual à da outra!”, diverte-se.

E para lidar com o assédio da rapaziada animada no Carnaval, como vai ser? “Sempre vai ter um para soltar uma piadinha. Já ouvi: ‘Tá sobrando mulher aí, passa uma pra mim!’ Olha, se a cantada for original, até que pode ter chance”, provoca Irene Milhomens, trombonista e bailarina.

Contar apenas com mulheres na escalação, acreditam as integrantes da Damas de Ferro, tem ainda uma outra vantagem: “Na hora de passar o chapéu, só com meninas, esperamos que as pessoas se entusiasmem mais a dar um dinheiro”, brinca Sabrina, ao que Thaís Bezerra, tocadora de caixa, completa: “Mas o apelo não pode ser só por sermos mulheres... Tem que ter qualidade!”, decreta. LSM (fotos Fernando Souza) 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Clube da Esquina carioca

Na verdade, não é em uma esquina, mas bem no meio de um quarteirão na rua Martins Ferreira, em Botafogo, mais especificamente no número 48. Porém, é ali que reside, desde quinta-feira, um pedacinho do famoso Clube da Esquina de Milton Nascimento. Filho de Beto Guedes, um dos pioneiros do tal “clube” mineiro, Gabriel, 35 anos, abriu, no endereço onde funcionou por anos o Espaço Cultural Maurice Valansi, uma filial do bar Godofredo (homenagem ao avô, um notório compositor de choros), sucesso há quatro anos no boêmio bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte.

“Vai uma pinguinha aí?”, convida o anfitrião, esbanjando mineirice, assim que chega nossa equipe (ainda eram 11h da manhã, registre-se). “Entre outras marcas, tem aqui uma cachaça especial do norte de Minas, Viriatinha, que é pau a pau com as melhores”, destaca.

Além das opções etílicas e gastronômicas que remetem a Minas Gerais, é claro que o prato principal do Godofredo é a música. Com instalações temáticas do Clube da Esquina e repleto de instrumentos pendurados pelas paredes, assim como sua matriz em Belo Horizonte, o espaço é um convite à canção.

“Vai ser exatamente como é lá!”, garante Gabriel, que, no meio da noite, costuma surpreender os clientes ao tocar clássicos de seu pai no piano em uma canja não-programada. “A ideia é, quem quiser, pegar um violão, um sax, um trompete, um baixo ou sentar ao piano (tem um de cauda bem no meio do bar!) e fazer um som. O Milton Nascimento é meu padrinho, e ele sempre disse que o lance legal do Clube era a amizade. E eu mesmo já estou fazendo uma rede de amigos músicos no Rio”.

Entre esses novos chapas, está Daniel Jobim, neto do Tom, atração de sexta-feira no Godofredo. “Estou em um ‘ping-pong’ danado entre Belo Horizonte e o Rio. Aluguei um apartamento no Humaitá, mas ainda conheço pouco a cidade. Ao menos, já aprendi onde é o Túnel Rebouças e como chega na casa do Daniel, em Ipanema”, diverte-se Gabriel Guedes.

Aos sábados, o bar convida músicos da nova geração e, aos domingos, o palco está aberto. Entre os nomes já programados estão Toninho Horta, Milton Nascimento, Yuri Popoff, Hamilton de Holanda e Beto Guedes. O pai de Gabriel, inclusive, é o principal responsável por despertar a paixão do filho pelo Rio. “Eu amo essa cidade! Desde criança, quando meu pai vinha tocar aqui. Lembro de ficar deslumbrado olhando as praias na Zona Sul e aqueles gramadões no Aterro do Flamengo”, recorda. “E aqui onde abrimos o bar, de lambuja, ainda tem a vista do Cristo ali do lado”, comemora.


E, atestando a emblemática frase da música ‘Clube da Esquina 2’, que diz que “sonhos não envelhecem”, Gabriel antecipa, entusiasmado, seus próximos projetos: “Depois de estabelecer o Godofredo no Rio, quero montar um em São Paulo. É importante manter vivas as músicas do Clube da Esquina”, decreta.

GOSTINHO DE MINAS
Para a empreitada no Rio, Gabriel Guedes está com mais três sócios: os também mineiros Pablo Curty e Ramon Curty, e o chef Renato Costa, único carioca da equipe. É ele quem assina o cardápio com influências da cozinha mineira, apresentando pratos que mesclam o tradicionalismo dos ingredientes das fazendas com a cozinha contemporânea.


“Acho que o carro-chefe do Godofredo vai ser o pastelzinho de angu, que é uma coisa que não se vê muito aqui no Rio”, elege Renato (serão seis unidades, nos sabores couve com torresmo e bacon; palmito com tomate seco e cheddar; e frango caipira com requeijão, por R$ 15,90). O chef foi professor de gastronomia em Sidney, na Austrália, e serviu até a estrela do cinema Nicole Kidman.

“Outros destaques, acredito que serão a carne de panela na cerveja preta (R$ 31,90) e a panceta de porco (R$ 32,90), que em Minas é chamada torresmão de barriga. É a tradicional panceta assada, mas com molho de tamarindo”, descreve. LSM (fotos Felipe O'Neill) 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Secos, molhados e brigados

Parece que um gato preto cruzou o caminho do grupo Secos & Molhados, um dos mais importantes e populares da história da música brasileira. Logo após o imenso sucesso, no início dos anos 70, o trio formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad se desfez tão rápido quanto despontou ao estrelato. E, desde então, disparam cobras e lagartos uns contra os outros, João de um lado, Ney e Gerson do outro. Este último acaba de lançar sua versão da história da banda no livro ‘Meteórico Fenômeno — Memórias de um ex-Secos & Molhados’ (editora Anadarco, 135 págs., R$ 56).

“O João Ricardo é patético: já declarou tantos absurdos contra mim e contra o Ney que achei por bem escrever uma visão tranquila e amadurecida do que vivi. Durante os anos, muita coisa foi deturpada por essas declarações do João Ricardo. É um desrespeito ao público que tanto nos cultua até hoje”, desabafa Gerson Conrad.

O livro traz ainda um CD, com duas músicas recentemente gravadas pelo autor: a clássica ‘Rosa de Hiroshima’, que ele fez para a poesia de Vinicius de Moraes, mas nunca havia cantado, e ‘Direto Recado’, uma mensagem ao seu desafeto em forma de canção (“Em boca fechada não entra mosquito e também não gera conflito”, “Talvez fosse melhor deixar que vivesse o mito” e “Já não temos mais que ser nem secos, nem molhados” são alguns trechos da letra).

Apesar de fartamente ilustrada, a publicação não traz João nas fotos históricas. “Ele negou o uso de imagens, mas, se você entrar no site do Secos & Molhados que ele fez, eu posso aparecer nas fotos ao lado dele. É uma pobreza de espírito total”, decreta Conrad.

João Ricardo afirmou que o ex-colega “valorizou muito sua participação no grupo, coitado. Nunca tocou bem”. “Mais uma vez, ele foi desrespeitoso comigo”, lamenta Conrad. “Ele só não percebe que a formação mágica e reconhecida é a que eu participei. Das outras, ninguém sequer se lembra. Foi um encontro mágico. O Secos é comigo e com o Ney!”.

Gerson Conrad e Ney Matogrosso, no lançamento do livro

Apesar de os três artistas estarem aí vivos e saudáveis, parece que ainda é muito difícil que o trio volte a se reunir, mesmo que em uma ocasião especial apenas. “Já me ofereceram R$ 5 milhões para isso! Mas o João quer ser sozinho o pai da história”, descarta.

E a tal questão, tratada inclusive no livro, sobre o grupo norte-americano de rock Kiss ter imitado as maquiagens do Secos? “Até hoje, ninguém tem a resposta da verdade. Quem me dera toda polêmica fosse leve como essa!”, diverte-se Conrad. LSM