quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ai se eu te.. o quê?

Frejat fala da volta do Barão Vermelho, se derrete tocando com os filhos, solta os cachorros nas biografias dos anos 80 e assume que nunca ouviu a música de Michel Teló

Os olhos do cantor, compositor e guitarrista Roberto Frejat brilham que nem criança ao contar as recentes experiências musicais com os filhos, Rafael, de 15 anos, e Julia, de 12. Ele também está entusiasmado com o novo show ‘A Tal da Felicidade’ e com a volta do Barão Vermelho aos palcos este ano. Mas nem o projeto solo nem com a banda trazem novas canções. Isso tem rolado mesmo em família.

“Eles estão se interessando por música e é um grande barato tocar com eles. Fizemos uma canção juntos, os três”, começa, sorriso largo de pai coruja no rosto. “Fiz a melodia para uma letra que a Julia escreveu, chamada ‘Maria’, que dedicou para uma amiga dela. Gravamos, o Rafael tocou guitarra e baixo e a Julia cantou. Daí, eu queria colocar na Internet, mas ela vetou! Até a amiga Maria aprovou, mas a Julia pediu para não divulgar ainda”, conta, com certa frustração pelo veto da filha.

Enquanto a pequena se descobre letrista, Rafael já está caindo dentro da guitarra. O paizão, sempre atento e preocupado, acompanha de longe, sem interferir muito.

“A vida do músico é difícil. Eu não sou músico, sou artista!”, decreta. “O músico pode passar a vida toda tocando o que não gosta e com quem não gosta. Rafael ainda não disse se quer ser profissional. Hoje, é ainda mais difícil vencer nesta profissão do que na época em que comecei”, ensina.

Sobre esses velhos tempos, os anos 80, Frejat reclama que a história da década ainda não foi bem contada, e anuncia que um dia gostaria ele mesmo de expor sua versão dos fatos.

“Aquela década é subestimada por muita gente. Sempre fazem uma visão muito simplista e boba, e tem muita coisa interessante que é colocada de lado. Fãs e amigos vivem pedindo para eu contar minhas memórias. Preciso começar a gravar as histórias para não esquecer. Aí, um dia dou as fitas para uma pessoa escrever e depois reviso”, planeja o músico, digo, artista, quase cinquentão (completa 21 de maio). “Ainda é cedo, até porque eu acho que uma pessoa de 50 anos não pode escrever livro de memórias. Parece que a pessoa está sem memória! Isso se faz aos 70, 80 anos”.

Impressão, ou foi uma provocação com o contemporâneo Lobão, que lançou a sua biografia em 2010? “Não! O livro do Lobão eu comprei, mas ainda não li. É um best seller, então deve ser muito bom”, esquiva-se.

Enquanto não revisa o passado, Frejat se atualiza com o presente. Recentemente lançou site e entrou no Twitter e Facebook. “Só não ouvi ainda o sucesso do momento, do Michel Teló. Mas toda música boa tem um refrão forte. Por isso, não acho ‘Ai Se Eu Te Pego’ menor que ‘Aquele Abraço’, do Gil”, compara.

‘ESTOU CANTANDO CADA VEZ MELHOR’
A parceria em família continua no novo show solo de Frejat: o filho Rafael está escalado para dar uma canja com o pai. Desde que gravou no disco que Frejat lançou em 2008, ‘Intimidade Entre Estranhos’, até o Rock In Rio, ano passado, o garoto vive dando uma palinha. O repertório de ‘A Tal da Felicidade’ é um grande baile, passeando pelos sucessos de sua carreira, desde o Barão Vermelho, até clássicos de Tim Maia, Erasmo Carlos, Gilberto Gil e Caetano Veloso, além de ‘A Felicidade Bate à Sua Porta’, de Gonzaguinha, primeiro sucesso das Frenéticas e que dá nome ao show.

“Gosto muito de cantar músicas de outras pessoas. É um show de intérprete e, na boa, modéstia à parte, estou cantando cada vez melhor”, gaba-se Frejat.

Pouco a pouco, bancando do próprio bolso, ele vem gravando essas canções antigas que selecionou para a apresentação. “Isso pode virar um disco, mas por enquanto a ideia é liberar na Internet”, conta, ressaltando que também vem compondo inéditas com amigos como Luiz Melodia e Jards Macalé. Este, prepara um disco relendo a obra de Nelson Cavaquinho, que o próprio Frejat vai coproduzir com Arlindo Cruz.

Passado o show de covers,o foco vai para a celebração, a partir de maio, dos 30 anos do lançamento do primeiro disco do Barão Vermelho. “Estou com os integrantes originais da banda remixando o disco, que virá com um grande ‘Kinder ovo’: uma canção inédita daquela época, que sabíamos da existência, claro, mas nunca lançamos”, antecipa sobre a faixa, que nunca foi batizada e cujo título ainda está sendo escolhido pelos integrantes.

O Barão, então, sairá em turnê — provavelmente a última da carreira do grupo — para festejar sua história, com direito a participação do baixista original, Dé Palmeira, e de quem mais desses 30 anos de estrada aparecer. “A gente adora o bundalelê de enfiar todo mundo no palco. A ideia é só fazer grandes apresentações, mas poderia rolar um show temático, só com as músicas daquele disco, no Circo Voador”, vislumbra Frejat. LSM (foto: Fernando Souza)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O capitão do time do Chico

Maestro de Chico Buarque, Luiz Claudio Ramos é quem dá os passes na banda do cantor

Dentro das quatro linhas do palco de Chico Buarque, ele é o capitão. O violonista Luiz Claudio Ramos, desde os anos 70, é parceiro musical do cantor e compositor e, em shows e gravações, dá os passes e marca os gols como arranjador e produtor musical. Que Chico é um craque da canção, todo mundo sabe — e confere seu talento na nova turnê, a partir de hoje, no Vivo Rio —, assim como também é conhecida sua paixão pelo futebol. Mas, afinal, ele é bom mesmo, ou, como jogador, não é mais que um bom músico?

“Ele gosta de jogar, né?”, desconversa, rindo, Luiz Claudio Ramos, 62 anos, ex-atacante do Polytheama, time do qual Chico Buarque é o cartola. “A gente vive se sacaneando, porque ele é Fluminense e eu, Vasco. Olha, bom de bola mesmo são o Carlinhos Vergueiro e o Eri Johnson. Agora eles mudaram os horários da pelada: sob o sol de meio-dia não dá mais para mim. Mas eu sou artilheiro!”, gaba-se.

Parece coisa de jogador mascarado, mas uma contusão deixou o músico preocupado nestes últimos dias. “Machuquei o dedo mindinho da mão esquerda, justamente jogando bola, mas vai ficar tudo bem para o show”, garante Ramos, evitando usar o dedinho ao dedilhar seu violão.

O maestro do Chico não é chegado a ficar no banco: gosta de ir para campo: “Eu o entendo, é muito requisitado, e suas apresentações são raras, mas eu soltei fogos quando ele resolveu ir para a estrada!”, comemora.

Chico, com a serenidade digna de um técnico de futebol, se explica: “Não queria pensar em fazer turnê enquanto estava gravando o novo disco, não queria me comprometer com datas. Depois, então, fiquei com vontade de cantar as músicas ao vivo. A partir daí, me juntei com o Luiz Claudio Ramos para reunir outras antigas também para o repertório”, detalha. “O show tem desde ‘Sonho de Carnaval’, minha primeira música gravada, de 1965, até as mais recentes, e algumas que nunca cantei ao vivo, como ‘Geni’. Quando vi, o repertório tinha muitas canções cantadas no feminino. Até sugeri ao figurinista que eu me vestisse de saia no palco”, brinca Chico Buarque.


‘ELE FEZ O DISCO TODO PRA ELA’
Boa parte da nova leva de letras de Chico Buarque, porém, é cantada no masculino e para conquistar uma menina em especial. “Ele fez o disco todo para a (cantora) Thais Gulin”, conta Luiz Claudio Ramos. “Ela é paranaense, de Curitiba, e esteve com a gente nos shows que fizemos lá”.

A nova turnê, que chega hoje à cidade, fica em cartaz por seis semanas no Vivo Rio, de quinta a domingo. LSM (foto: João Laet)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Os dez anos sem Cássia Eller são lembrados em CDs e documentário sobre sua vida



 Mudaram as estações e nada mudou: dez anos depois, a lacuna deixada por Cássia Eller na música brasileira ainda não foi preenchida. Novas cantoras surgem aos montes no cenário, porém, desde sua precoce morte, vítima de infarto aos 39 anos, em 29 de dezembro de 2001, no auge da carreira, não apareceu nenhuma com voz tão marcante e poderosa, tamanho carisma, presença de palco e interpretações tão singulares. A década de saudade desta artista única já está sendo lembrada em diversos lançamentos, de CDs e DVDs a um documentário para o cinema.
 
Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e programado para o primeiro semestre de 2012, o filme, inicialmente batizado apenas de ‘Cássia’, já está sendo rodado. Esta semana, de Maceió, onde registrou a primeira vez que a banda da cantora voltou a se reunir depois de dez anos, ele contou, por telefone, que o longa vai revelar como era a cantora em sua intimidade, uma pessoa bem diferente da que ficou conhecida nos palcos.

 
“Estou entrevistando não só os amigos famosos, como Nando Reis, mas, principalmente, a equipe que trabalhava com ela nos bastidores. Me contaram que ela era supergenerosa, e tratava todo mundo como uma família. Os ‘roadies’ moravam na casa da Cássia, e ela repartia o cachê, todo mundo ganhava a mesma coisa”, descreve Fontenelle.

O diretor teve o aval de Maria Eugênia, companheira de Cássia, depois que o filho da cantora, Chicão, se declarou fã de seu primeiro filme, ‘Loki’, sobre Arnaldo Baptista. “Já estamos reunindo imagens fantásticas, caseiras, como o nascimento do Chicão e todo o crescimento dele, além de várias entrevistas que nunca foram ao ar”, adianta.
Fontenelle conta ainda que não planejava fazer outro documentário musical. “Queria fazer um filme policial, mas não dá para recusar quando se tem Cássia Eller como tema, não é?”, avalia.


PARA CURTIR CÁSSIA ELLER
No embalo dos dez anos sem Cássia, acaba de ser lançada a ‘Caixa Eller’ (R$ 150), com seus oito CDs de carreira e o DVD ‘Violões’, uma reunião de programas na TV Cultura entre 1990 e 1999. Também já está nas lojas o CD ‘As Canções Que o Nando Fez Pra Cássia Cantar’, que traz registros inéditos, como ‘Baby Love’, canção cortada do disco ‘Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo’ (1999).

 
Além disso, deve vir por aí o DVD do projeto ‘A Luz do Solo’, registro de um show intimista no Rio, em 2001. 

 
Existe ainda um CD inédito, com o guitarrista Victor Biglione, gravado há 20 anos, no qual ela canta clássicos do rock. LSM

 
‘DEU UM FLASHBACK DE ELIS’  - POR ROBERTO DE CARVALHO *
“Estava em Nova York, andando na rua, era uma tarde de muito sol e alegria, quando um dos meus filhos ligou e me contou da morte da Cássia. Foi um tremendo choque. Ela estava no auge, em um momento espetacular. Deu um tremendo flashback de Elis. Nos conhecemos no ensaio do ‘Acústico’ da Rita Lee. Ela era timidíssima! Um passarinho com voz de supersônico.

 
A música que mais me marcou de seu repertório foi ‘O Segundo Sol’, e o momento mais marcante foi o show dela no Rock In Rio, quando mostrou os peitos, que foi uma coisa de uma força simbólica inacreditável, um glimpse de Macunaíma na era do maracatu atômico. Cássia Eller era uma menina de ouro num país de cantoras predominantemente caretas, que em geral seguem um modelo dondoca dos anos 70. A Cássia era um alento, uma coisa rock ’n’ roll, a única que poderia de alguma maneira ter dado sequência a uma tradição da qual a Rita é a sacerdotisa máxima, da artista mulher que vai do rock em direção ao pop, passando pela MPB, soando autêntica em qualquer uma dessas praias”.

* Roberto de Carvalho é guitarrista e compositor


Colaborou Guilherme Scarpa 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Depois de CD com Paulo Ricardo, Toquinho grava com Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho

Aos 65 anos, Toquinho está cada vez mais surpreendente. Não exatamente por novas belas melodias, harmonias e canções ou pelo talento ao violão. Conhecido, principalmente, pela brilhante parceria com o poeta Vinicius de Moraes, o cantor, compositor e instrumentista vem ‘causando’ pela aproximação com artistas, em princípio, bem distantes de seus conhecidos caminhos musicais.

Ainda este ano, Toquinho lançou um CD em homenagem a Vinicius. Até aí, tudo bem, não estivesse o tributo repleto de arranjos eletrônicos e com vocais de... Paulo Ricardo, do RPM. Agora, depois de oito anos sem lançar material inédito, ele volta ao ofício com ‘Quem Viver, Verá’, e chama a atenção por impensáveis duetos com Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho.

“Gosto de diferentes estilos, sempre ouvi de tudo, do balanço do Jorge Ben, com quem compus meu primeiro sucesso (‘Que Maravilha’, de 1968), ao rock do Elvis Presley”, defende-se Toquinho.

Com Ivete, ele se entregou ao frevo em ‘Quero Você’. Zeca, por sua vez, nem quis saber da nova safra de canções, preferindo passear por território conhecido. “Ivete ficou muito entusiasmada quando falei que fiz uma música que achava a cara dela. Para o Zeca, ofereci outra inédita, ‘Meu Canto’, que também achei muito parecida com o estilo dele. Liguei, convidando, só que ele, bem do seu jeito, disse que queria porque queria cantar ‘Regra Três’. Eu até insisti, mas ele não quis saber de música nova”, relata, às gargalhadas.

A paixão pelos clássicos de sua parceria com Vinicius de Moraes, registre-se, não é exclusividade de Zeca Pagodinho. “É verdade, ninguém se cansa de ouvir, essas canções foram muito marcantes”, assume Toquinho. “Quando Vinicius morreu, em 1980, o primeiro telefonema que recebi foi da minha mãe, perguntando: ‘Meu filho, o que vai ser de você agora?’. Mas considero que consegui fugir um pouco desta sombra. O meu maior sucesso, por exemplo, é ‘Aquarela’, lançada em 1983”, avalia. LSM

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O ‘Clube da Esquina’ de Lô Borges e seus amigos

Com apenas 17 anos de idade, o cantor e compositor mineiro Lô Borges foi convidado pelo carioca (mas mineiro de coração) Milton Nascimento para gravar, no Rio de Janeiro, seu primeiro disco. O lançamento se tornaria um dos mais clássicos da história da música brasileira: nada menos que o badalado ‘Clube da Esquina’, de 1972. O álbum trazia ainda outros ‘sócios’ daquele clube musical, como Beto Guedes e Toninho Horta. Quase 40 anos depois, Lô Borges dispara um novo CD, o recém-lançado ‘Horizonte Vertical’, repleto de amigos, como Samuel Rosa (Skank), Fernanda Takai (Pato Fu) e o próprio Milton Nascimento, que cantam em diversas canções.


“As pessoas têm falado que esse é o meu ‘Clube da Esquina’, mas eu não posso classificar o disco assim. O ‘Clube’ é um projeto original do Milton, hierarquicamente é um lance dele. Neste novo CD, reuni pessoas que acho interessantes, mas não tem a intenção de ser um ‘Clube do Lô’. Se quiserem chamar assim, tudo bem, mas eu não posso”, descarta o músico, cheio da peculiar mineirice.

Além dessa turma citada, há ali, entre os convidados mais populares, uma pessoa tão ou mais especial, que contribuiu com diversas letras para suas melodias e acordes. É, Lô Borges está apaixonado. “A Patrícia Maês, escritora e musicista, era ainda minha namorada quando começamos nossas parcerias”, derrete-se o cantor. “Agora estamos casados, ela é de São Paulo, mas consegui trazê-la para morar comigo em Belo Horizonte. Já temos várias outras músicas juntos”.

Além da parceria conjugal, a fraterna, com o amigo Samuel Rosa, é a que deve render mais que as canjas no álbum. “Tenho uma história musical com ele desde 1999. Fizemos dezenas de apresentações do show em dupla ‘Lô Borges & Samuel Rosa’, e isso ainda pode virar um DVD ou um CD de inéditas. Só depende da agenda do Skank”, anuncia Lô. LSM

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Ainda selvagens?

Às vésperas de voltarem ao Circo Voador para resgatar o repertório de seu disco mais clássico, músicos do Paralamas do Sucesso garantem que continuam ferozes e furiosos

Já se passaram mais de 25 anos desde o lançamento do clássico ‘Selvagem?’, do Paralamas do Sucesso, em abril de 1986, apontado por muitos como o auge de criatividade do grupo. Os músicos — que enfileiram na íntegra o repertório do álbum, sábado, em show que promete ser histórico, no Circo Voador — garantem que ainda fazem justiça ao nome do emblemático disco.

“Tem que ver meu lado selvagem! Ele aflora na hora que tenho que colocar meu filho Vicente, de 8 anos, para dormir. É dos piores momentos do dia”, diverte-se o baterista João Barone.

O baixista Bi Ribeiro, pai de Teresa (10) e Tito (7), faz coro com a selvageria do colega. “Pô, eles resistem até o último minuto”, reclama.

Herbert Vianna, que também tem seus pimpolhos — Luca (18), Hope Izabel (15) e Phoebe Rita (12) —, prefere destilar seu lado feroz na língua afiada, a mesma que disparou alguns dos versos mais marcantes do disco, como “A polícia apresenta suas armas...”, de ‘Selvagem’, ou “A cidade, que tem braços abertos num cartão-postal, com os punhos fechados da vida real”, de ‘Alagados’. “Tenho um ponto de interrogação sobre as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Penso que algo mais produtivo seria investir na educação. Em 99,9% dos casos, as UPPs são como uma blitz eficaz: resolve pontualmente, mas logo tudo volta a ser a mesma coisa”, compara o guitarrista.

Quem levou uma blitz, mas não da polícia, foi o próprio grupo, na época do lançamento de ‘Selvagem?’. Com suas influências de reggae, ritmos latinos e até um cover de Tim Maia, o álbum levou uma dura até de colegas do Barão Vermelho e Titãs, que decretaram que o Paralamas não era mais uma banda de rock. “Acho normal. A gente teria a mesma reação se aparecesse outro grupo fazendo um som que excluísse e minimizasse o potencial do que a maioria das bandas estava fazendo”, reavalia Herbert Vianna.

A NOVELA DA VIZINHA
A primeira parte do show de amanhã vai destacar o álbum ‘Selvagem?’. No final, claro, o grupo faz o baile com outros sucessos da carreira. “Tivemos que ouvir o disco todo de novo, porque vamos tocar os arranjos iguaizinhos aos originais”, descreve Bi Ribeiro. “Para isso, vamos contar também com o teclado do João Fera, a percussão de James Muller e a guitarra e efeitos do Liminha, que foi o produtor do disco, em 1986”.

Os ensaios estão rolando no novíssimo estúdio do trio, instalado no primeiro andar do prédio onde João Barone mora, no Jardim Botânico. Os vizinhos, garante o baterista, estão adorando a sonzeira. No entanto, foi só o grupo dar mole com a porta aberta para uma senhora, moradora do apartamento ao lado, aparecer: “Dá para tocar mais baixo que eu quero ver a novela?”. É, os caras continuam selvagens mesmo!


O CARA DA CAPA
Os ensaios para a gravação de ‘Selvagem?’, em 1986, aconteciam em um quarto na casa da avó de Bi Ribeiro, em Copacabana. Na parede, tinha uma foto pendurada, de um garoto magricelo e cabeludão, segurando um arco e flecha, com uma camiseta amarrada na cintura, na frente de uma barraca de camping.

O “modelo” era Pedro Ribeiro, irmão do baixista Bi, e que hoje trabalha como produtor técnico da banda, e a imagem, que traduz de forma perfeita o título do disco, acabou estampando a capa.

“Quem tirou a foto foi o Dado Villa-Lobos (guitarrista da Legião Urbana). Lembro que foi tirada no dia 7 de setembro de 1980. A gente acampava muito naquele terreno, que era do meu pai, em Brasília. Até hoje, as pessoas comentam comigo sobre esta capa. Foi um momento especial da minha vida”, conta Pedro Ribeiro.

BROWN PARALAMA
Quis o destino que o Paralamas do Sucesso não virasse uma banda de axé. Depois da primeira edição do Rock In Rio, em 1985, aconteceu de o grupo subir em um trio elétrico em Salvador e, influenciados que estavam pelos balanços dos dançantes ritmos latinos, caíram no rebolado do cantor Luiz Caldas, que bombava Brasil afora com a música ‘Fricote’ (aquela da letra “Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear...”).

Acompanhando Caldas, na percussão, um músico muito animado chamou a atenção do trio e quase acabou sendo recrutado para gravar no disco ‘Selvagem?’. “Foi no Carnaval de 1985 que conhecemos o Carlinhos Brown”, recorda Bi Ribeiro. “A gente deu uma canja naquele trio elétrico e ali testemunhamos o nascimento do axé”.

Em 1986, Brown veio para o Rio de Janeiro encontrar com Herbert, Bi e Barone, que cogitavam acrescentar um percussionista em sua formação — quem acabou gravando em ‘Selvagem?’ com a banda foi Armando Marçal. Brown, porém, ficou amigo do grupo e, futuramente, trabalharia bastante com eles.

“Ele já era assim como o conhecemos hoje: um cara ligado em 220 volts. Acabou que não foi naquele momento que gravamos com ele, mas ele chegou a ir nos ensaios do ‘Selvagem?’, isso bem antes de tocar na banda do Caetano Veloso”, conta Ribeiro. LSM (foto: Felipe O`Neill)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

De volta para o futuro

Lincoln Olivetti retorna à cena em show e novos lançamentos

Instrumentista, arranjador, compositor e produtor, Lincoln Olivetti é chamado de ‘o feiticeiro dos estúdios’ e ‘o mago do pop’. Aos 57 anos, ele tem cara mesmo é de cientista louco, misto de Professor Ludovico com Dr. Emmett Brown (personagem do ator Christopher Lloyd em ‘De Volta Para o Futuro’).

“Sempre estive à frente do meu tempo. Adoro música eletrônica e minha filha é ‘a’ DJ, não é verdade?”, decreta o pai coruja da badalada Mary Olivetti, no corredor do estúdio em Botafogo, onde ensaia uma volta solo aos palcos, em raríssima aparição, hoje, no Copacabana Palace. “Também sei tudo de eletrônica. Adoro quando queima algum equipamento!”, conta o músico, todo futurista.


Durante a carreira, a fama de gênio de Lincoln Olivetti cresceu junto com a de excêntrico, por gostar de passar dias trancado em seu estúdio, uma salinha quase sem iluminação, e por ser arredio a entrevistas. “Meu filho, quanto mais se vê, menos se ouve”, define o veterano. “Pode tirar onda, porque essa é a primeira entrevista que dou para um jornal”, valoriza.

A implicância com as reportagens, ele explica, vem das críticas de que seria responsável por uma padronização sonora da MPB — Gal Costa, Gilberto Gil, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Rita Lee, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Angela Ro Ro, Zizi Possi, Fagner, Lulu Santos, Wando e muitos, muitos outros mesmo, já foram produzidos ou arranjados por Lincoln Olivetti.

“Fiquei marginalizado. Nunca quis responder aos críticos, que foram muito pejorativos. Disse apenas: vocês vão se f* e eu vou pra p.q.p., daí todos ficam felizes”, diverte-se.

Entre risos, as lembranças (“Tim Maia me passava os arranjos dele, eu mudava tudo e ele nunca percebia”) só são interrompidas para matar a larica: “Preciso de uma pizza, sem cebola! Esse negócio de entrevista dá muita fome!”, conclui, reconhecendo que o papo deu a maior onda.

DO COPA FEST À INTERNET
No show hoje, dentro da programação do evento CopaFest, Lincoln Olivetti vai tocar seu clássico disco com Robson Jorge e fazer uma homenagem ao lendário Ed Lincoln, à frente de Kassin (baixo), Davi Moraes (guitarra), Donatinho (teclado), Cesinha (bateria), José Carlos Bigorna (sax), Lelei Gracindo (sax), Altair Martins (trompete), Diogo Gomes (trompete), Peninha (percussão) e Marlon Sette (trombone), entre outros.


Fora do palco, Lincoln Olivetti anuncia novos lançamentos para este ano. “Resolvi soltar tudo que venho compondo ao longo do tempo, mas vou vender só pela Internet”, anuncia, sempre antenado. LSM (fotos: Luiz Lima)